Marco Ricca defende mais espaço para cinema nacional: "Somos tratados como lixo"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Em entrevista ao iG, ator fala sobre o filme "Os Amigos" e defende reserva de mercado para produções brasileiras

Marco Ricca é mais do que o protagonista de "Os Amigos", filme de Lina Chamie que está em cartaz no Brasil. A amizade do ator e da diretora, que começou nas filmagens de "A Via Láctea" (2007), inspirou a história de Théo, um homem desiludido que repensa toda a sua vida após o enterro de um amigo de infância.

Imagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Os Amigos'. Foto: Divulgação

Aos 52 anos recém-completos, Ricca não compartilha o desânimo de Théo e diz que seu comportamento, hoje, é o de "abrir portas". Dirigir um segundo longa-metragem é uma vontade, mas não um plano, por causa do "sofrimento" que experimentou com "Cabeça a Prêmio", de 2009. Além da dificuldade de captação de recursos, Ricca vê como "batalha" a conquista de espaço no circuito exibidor.

"[O cinema brasileiro] está na mão, infelizmente, de pessoas que nos tratam como lixo. Dão um pedacinho do que sobra [do circuito] pra gente", afirma, em entrevista ao iG.

Ricca também se incomoda com as comparações entre o cinema brasileiro e o argentino, que ganharam fôlego com o sucesso de crítica e público da comédia "Relatos Selvagens".  

"Não é possível que a gente tenha que ficar ouvindo que os argentinos aprenderam a fazer cinema e nós não. Aprendemos a fazer o nosso cinema. Você pode não gostar, mas há um cinema nacional sendo pensado aqui, de um jeito muito próprio."

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: É verdade que o filme foi inspirado na sua amizade com a Lina?
Marco Ricca: Ela disse que sim. Nos conhecemos um pouco antes de filmar "A Via Láctea" e travamos uma amizade muito forte, intensa, para a vida inteira. No filme também há um encontro de almas em relação ao meu personagem e ao da Dira [Paes]. A tese do filme é que a amizade é tão forte quanto qualquer outro sentimento que a gente possa ter. Acho que a Lina demonstra isso muito bem.

Thiago Duran/AgNews
O ator Marco Ricca na pré-estreia de 'Os Amigos' em São Paulo (24/11/2014)

iG: Quais são as qualidades dela como diretora?
Ricca: Acho que ela tem uma das cabeças mais interessantes do cinema nacional, um raciocínio muito próprio. É uma grande intelectual, uma grande poeta que consegue transformar isso em histórias e imagens de forma muito surpreendente e única. Não saberia citar quem filma como ela. E é uma diretora que sabe muito bem o que quer. A gente se entende no set. De alguma forma, acho que consigo compreender a cabeça dela, que é bem estranha [risos].

iG: Seu personagem começa dizendo que está "cansado, de saco cheio e sem esperança", e durante o filme repensa sua trajetórica. Neste mês você completou 52 anos. Como avalia este momento da sua vida?
Ricca: Estou ótimo. A Lina me disse uma coisa, não sei se durante a filmagem ou se no filme - já misturo o que é vida ou não -, mas ela fala que com o tempo e com a idade a gente vai fechando muito as portas do mundo, vai se isolando muito. O meu comportamento hoje é o de abrir de novo as portas, trazer o novo e o que existia antes. [Com o tempo] a gente volta a ser um pouco mais aberto. Claro que há uma seleção natural das coisas, nos pensamento, nas ideias, a tendência de ser um pouco mais objetivo com a idade. Mas tem essa coisa de abrir as portas. Parece que há uma retomada, um resgate.

iG: Voltar a dirigir está nos planos?
Ricca: Pode ser. [Dirigir] foi muito difícil para mim. Não a parte da direção, que eu amei, mas produzir cinema é muito difícil.

iG: Na fase da captação?
Ricca: É, demorei muito, sofri muito com isso. Quando você vai ver, você sobra com o filme na mão. É diferente do teatro, que produzi a vida inteira. No teatro você toma conta da obra que constrói - com mais ou menos público, mas você não derruba [a peça]. O filme eles derrubam. Eles [os exibidores] põem [o filme em cartaz] hoje e amanhã se acharem que não veio a quantidade de pessoas que eles querem...Está sempre na mão dessas pessoas que a gente nunca sabe quem são, autoridades não sei da onde, vindas do Olimpo, que mandam no cinema nacional e acham que tem de lançar do jeito "x", distribuir do jeito "y" e ficar em cartaz do jeito "h". Isto tudo é muito dolorido. Estou me preparando para voltar [a dirigir], mas não com a mesma intensidade, sem me pôr do começo ao final, levantar o dinheiro, captar, produzir, editar, escrever. Quero fazer com mais calma, formular o roteiro e, quando tiver tudo pronto, alguém vem e fala: "Toma, vai lá e dirige".

Divulgação
Imagem do filme 'Cabeça a Prêmio', dirigido por Marco Ricca

iG: Acha que é preciso interferência do governo para resolver a desigualdade na distribuição e o menor espaço do cinema nacional nas salas?
Ricca: Sou absolutamente favorável à reserva de mercado. Não sei o que significa isso - segundo as cabeças impensantes brasileiras é um bolivarianismo, sei lá como chamam esses caras aí. Mas a gente tem que saber cuidar de um patrimônio razoavelmente bem. É claro que não significa paternalizar, nem pegar obras que são porcarias e endeusar. Mas hoje [segunda-feira, 24] na "Folha de S. Paulo" se você pegar um colunista que chama [Luiz Felipe] Pondé e se intitula filósofo...ao invés de falar bem de um filme, ele começa falando mal do cinema nacional [em texto sobre "Relatos Selvagens", o autor questiona: "Por que nosso cinema brasileiro é tão inferior ao argentino?"] Então quer dizer: nós só temos detratores. Não temos nenhum aliado. É uma briga insana. A Lina está há anos produzindo este filme e a gente tem que torcer para que o público se encante rapidamente por ele, consiga entrar na sala, faça um boca a boca, para que não saia de cartaz e daqui a pouco já morra tudo. É uma luta inglória, é difícil. Acho que teria de existir um pouquinho de carinho por parte de quem tem o domínio disso. A gente está na mão, infelizmente, de pessoas que nos tratam como o lixo. Dão um pedacinho lá para a gente, do que sobra. Não sou pessimista em relação ao cinema nacional, mas em relação à política que temos.

iG: Em relação à distribuição, especificamente?
Ricca: Na distibuição, em tudo, na feitura. Claro que tivemos um grande avanço, estamos conseguindo produzir bastante. Mas o público não tem alcance. Não tem sala para o público ver [filme nacional]. São propriedades privadas e a gente tem que respeitar, num país capitalista o cara põe [em cartaz] o que ele quer. E eles não querem a gente. Grandes filmes passam rapidamente e é uma tristeza. Quando você vai assistir, os caras já tiraram de cartaz. Filme maravilhosos não tiveram tempo de ter a representividade dos filmes americanos.

iG: E as diferenças dentro do próprio cinema nacional, entre as comédias muito populares e os filmes autorais, por exemplo? Também há um desequilíbrio?
Ricca: Acho que é um desequilíbrio até no sentido de Globo Filmes. Não tem como negar que a Globo Filmes domina o mercado de alguma forma. Os filmes lançados lá têm mais possibilidades. E as comédias, querendo ou não, são uma tradição brasileira. Mas elas têm muito mais espaço, porque o distribuidor ou o dono do negócio [exibidor] fala: "Tem que ter uma comédia, senão não vai gente". Se deixar, no rádio também só vai tocar o que a gente tem que ouvir aí. Vai ter que ficar conceituando que o funk carioca é maravilhoso, um intelectual vai dizer que é interessantíssimo e importantíssimo para a formação da cultura brasileira e a gente vai seguindo isso. E o resto das músicas que estão sendo feitas no País, a exemplo do cinema, ficam encostadas, não tocam no rádio, não acontecem. A gente tá sempre sujeito a escolhas muito pessoais.

iG: Como assim?
Ricca: Poucas pessoas estão escolhendo o que a gente tem de ver, ouvir e ler. Acho que isso vale, um dia, uma ampla discussão nacional. E o próprio público [precisa] se acarinhar um pouco mais pelo cinema nacional, quebrar o preconceito. Isso também cabe à imprensa. Parte da imprensa parece que faz uma demonização do cinema nacional. Não é possível que a gente tenha que ficar ouvindo que os argentinos aprenderam a fazer cinema e nós não. Aprendemos a fazer o nosso cinema. Você pode não gostar. Inclusive pode mudar para a Argentina, pode morar na Argentina, pode ficar comendo churros na Argentina. Mas há um cinema nacional sendo pensado aqui, de um jeito muito próprio. Ainda bem que nossos cineastas não estão se rendendo a ficar tentando copiar. Passamos muito tempo tentando copiar outras estruturas de cinema. Estamos tentando inventar o nosso cinema, e talvez seja assim que vamos conseguir. [Um cinema] com a nossa identidade, como já houve em grandes momentos da história do Brasil. E acho que está acontecendo. Mas a gente não está tendo possibilidade de ver.

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