Novo filme dos criadores de "Matrix" é confuso e tem diálogos constrangedores

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Ficção científica "O Destino de Júpiter" é estrelado por Mila Kunis e Channing Tatum em caracterizações bizarras

A principal prova do sucesso e do impacto de "Matrix" é que, passados mais de 15 anos e tendo lançado quatro filmes que vão do mediano ao péssimo, os irmãos Andy e Lana Wachowski conseguiram US$ 175 milhões (R$ 479,4 milhões) para fazer "O Destino de Júpiter", ficção científica que estreia nesta quinta-feira (5).

A boa-vontade do público e da crítica tentou encarar as sequências da saga de Neo e o filme "Speed Racer" como acidentes de percurso, pontos baixos na carreira de cineastas talentosos. A tarefa ficou mais difícil com o confuso "A Viagem", e agora não parece ser injusto dizer que o acidente, na verdade, foi "Matrix".

Cenas de "O Destino de Júpiter", com Mila Kunis. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Destino de Jupiter'. Foto: ReproduçãoImagem do filme 'O Destino de Júpiter'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Destino de Júpiter'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Destino de Júpiter'. Foto: DivulgaçãoCenas de "O Destino de Júpiter", com Mila Kunis. Foto: DivulgaçãoCenas de "O Destino de Júpiter", com Mila Kunis. Foto: DivulgaçãoCenas de "O Destino de Júpiter", com Mila Kunis. Foto: DivulgaçãoCenas de "O Destino de Júpiter", com Mila Kunis. Foto: Divulgação

"O Destino de Júpiter" marca a primeira vez que os Wachowski filmam uma história original (e não uma adaptação) desde que encerraram a trilogia que os alçou ao sucesso, em 2003. 

Mila Kunis é Júpiter Jones, uma descendente de imigrantes russos nos Estados Unidos que ganha a vida limpando banheiros em Chicago. De repente, ela se vê perseguida por seres alienígenas contratados por três irmãos que pertencem a uma "família real" que controla o universo: Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth).

Todos querem Júpiter porque ela tem o mesmo código genético da matriarca do clã, uma semelhança (ou "recorrência", como diz o filme) que a transforma na rainha do universo e pode atrapalhar os planos dos irmãos de utilizar a população de planetas como a Terra mais ou menos como gado: eles "abatem" milhares de pessoas para criar uma espécie de poção que os mantém jovens e imortais há vários milênios.

Imagem do filme 'O Destino de Júpiter'
Divulgação
Imagem do filme 'O Destino de Júpiter'

Em defesa de Júpiter está Caine (Channing Tatum), um misto de cachorro e ser humano que se movimenta pelo espaço com botas magnéticas.

É tanta informação que em certo momento a pobre garota pergunta: "Tem como isso ficar mais estranho?".

Resposta: tem. A bagunça de "O Destino de Júpiter" evoca quase todos os filmes dos Wachowski - o estudo sobre o tempo de "A Viagem", o visual frenético de "Speed Racer" e as metáforas políticas de "Matrix".

No novo longa, porém, as metáforas são reflexões pouco elaboradas sobre o mundo capitalista que busca lucro a qualquer preço, a exploração dos mais pobres pela elite e a disputa por bens naturais - no caso, o tempo, "commodity mais preciosa do universo".

Qualquer comentário inteligente se perde em um roteiro confuso e diálogos que provocam risadas involuntárias. Um exemplo: quando Júpiter se apaixona por Caine, ele recua dizendo estar mais próximo de um cachorro do que dela, um membro da realeza. E ela responde: "Eu amo cachorros. Sempre amei cachorros".

Mais um: Caine leva Júpiter à casa de Stinger (Sean Bean), ex-companheiro de luta intergalática, e um enorme enxame de abelhas começa a voar em torno dela. Stinger se ajoelha e começa a chamá-la de majestade. "As abelhas são geneticamente dispostas a reconhecer a realeza", explica. "As abelhas não mentem."

Veja o trailer de "O Destino de Júpiter":

Ao ridículo do texto se somam caracterizações bizarras como a de Caine, que além das botas magnéticas também tem orelhas pontudas e um estranhíssimo cavanhaque descolorido. Redmayne não fica atrás, usando um manto com gola metalizada (às vezes sem camisa) e falando com voz sussurrada, nem de longe lembrando o talentoso ator que pode ganhar o Oscar neste ano por "A Teoria de Tudo".

Kunis é simpática e esforçada, mas ainda não consegue segurar uma história sozinha. O papel também não ajuda: Júpiter poderia ser uma forte heroína de filme de ficção científica, coisa rara em Hollywood, mas faz pouco além de ser carregada de um planeta a outro, e está mais interessada em ter um romance com Caine do que em liderar o universo.

Os Wachowski só vão bem nos efeitos especiais, desenvolvendo uma estética colorida e criaturas que se parecem com hologramas, além de explorar com sucesso a profundidade oferecida pelo 3D. Fãs de ficção científica também vão gostar das referências a filmes como "Star Wars", "Duna" e sobretudo "Brazil", incluindo uma ponta de Terry Gilliam como um dos burocratas que Júpiter encontra enquanto tenta reivindicar o trono. No mais, só rindo.

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