"O Jogo da Imitação" mostra vida de matemático que decodificou códigos nazistas

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Indicado a oito Oscars, filme estrelado por Benedict Cumberbatch faz tributo ao cientista Alan Turing, que foi condenado a tratamento cruel por ser homossexual

Uma série de semelhanças aproximam "O Jogo da Imitação, cinebiografia do matemático e criptoanalista Alan Turing que estreia nesta quinta-feira (5), e "A Teoria de Tudo", um retrato da trajetória do físico teórico Stephen Hawking que já está em cartaz.

Imagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'O Jogo da Imitação'. Foto: Divulgação

Os dois longas contam a história de gênios britânicos que tiveram imprescindível apoio de mulheres fortes - Joan Clarke para Alan, Jane Hawking para Stephen -; ambos concorrem ao Oscar de melhor filme; ambos simplificam o vocabulário científico e alteram ou omitem fatos históricos; e ambos compensam o formato convencional com atores excelentes, em especial os galãs ingleses Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne, respectivamente.

Entre as diferenças está o fato de Turing ser um personagem muito menos conhecido do que Hawking. Se o nome do matemático pode soar pouco familiar, sua contribuição foi definitiva: Turing chefiou a equipe que decodificou a máquina alemã Enigma, com a qual o regime nazista se comunicava com as forças armadas.

Imagem do filme 'O Jogo da Imitação'
Divulgação
Imagem do filme 'O Jogo da Imitação'

Interceptar e entender as mensagens enviadas ajudou os Aliados e, segundo analistas, encurtou em anos a Segunda Guerra Mundial. Além disso, a pesquisa de Turing é considerada fundamental para o desenvolvimento da ciência da computação e da criação de um dos mais indispensáveis aparelhos modernos, o computador.

O trabalho de Turing permaneceu confidencial durante décadas, inclusive depois de sua morte, em 1954. Dois anos antes, o matemático foi condenado por homossexualidade, então um crime no Reino Unido, sendo forçado a escolher entre a prisão e um "tratamento hormonal". Só em dezembro de 2013 recebeu um perdão oficial da realeza britânica.

Baseado no livro "Alan Turing: The Enigma", escrito por Andrew Hodges, "O Jogo da Imitação" narra os principais fatos da vida do personagem - o bullying na infância; a chegada à equipe escolhida para decifrar a Enigma; os obstáculos para criar uma máquina capaz de decodificar o sistema nazista; a relação difícil com os colegas de trabalho; a amizade com Clarke, de quem chegou a ficar noivo; o sucesso em segredo e a condenação posterior.

Como "A Teoria de Tudo", o filme do diretor norueguês Morten Tyldum é bem-feito, elegante e correto - até demais. Mais do que a ficcionalização de detalhes da vida de Turing, incomoda a forçação de barra tipicamente hollywoodiana, as frases feitas que são repetidas de um personagem para outro e o tom excessivamente inspirador quando a história de Turing é sobretudo trágica. Trata-se, afinal, de alguém condenado a um tratamento cruel pelo mesmo país e sociedade que ajudou a salvar.

"O Jogo da Imitação" suaviza o lado trágico sobretudo no final, escalando Keira Knightley, a intérprete de Clarke, para um discurso sobre a importância do trabalho de Turing. É um dos grande momentos da atriz e o trecho mais mostrado nas premiações às quais foi indicada. Mas é, também, uma cena que diminui o impacto do filme ao pôr em palavras o que não precisava ser dito, e ao ir contra o aspecto mais comovente da história de Turing: o fato de que não viveu para ver sua contribuição ser reconhecida.

Veja o trailer de "O Jogo da Imitação":

Se o filme simplifica o que é complexo, o mesmo não pode ser dito dos atores. Indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, Knightley poucas vezes despertou tamanha empatia na tela do cinema, e está muito bem no papel de uma mulher que desafia convenções e mostra excelência no trabalho matemático e intelectual então reservado aos homens.

Também na corrida pela estatueta, Cumberbatch prova merecer o status de ator do momento, e faz inteligente uso de sua aparência pouco usual para mostrar um Turing esquisito, mas humano. É um personagem cheio de camadas, ao mesmo tempo admirável e intratável, incompreendido e arrogante, cômico e melancólico.

Como Redmayne em "A Teoria de Tudo", Cumberbatch é o principal responsável por fazer com que, apesar das falhas, "O Jogo da Imitação" funcione como cinema e como retrato de um personagem notável que merece ser conhecido pelo grande público.

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