Clint Eastwood mostra custo humano da guerra em "Sniper Americano"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Indicado a seis Oscar, filme tem Bradley Cooper no papel de Chris Kyle, militar que matou 160 pessoas no Iraque

São duas as principais acusações feitas contra "Sniper Americano", o concorrente mais polêmico do Oscar 2015, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (19) como a maior bilheteria da carreira do diretor Clint Eastwood e o filme de guerra que mais faturou nos Estados Unidos em toda a história.

Leia também: "Birdman" e "O Grande Hotel Budapeste" lideram indicações ao Oscar

A primeira é que o longa faz propaganda de guerra ao mostrar a invasão americana no Iraque sem oferecer contexto político ou dar voz aos iraquianos. A segunda é que transforma em herói o controverso Chris Kyle, considerado o atirador (sniper) mais letal do Exército americano, com 160 mortes confirmadas - marca que lhe rendeu o apelido de "lenda".

Imagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: DivulgaçãoImagem do filme 'Sniper Americano'. Foto: Divulgação

No melhor papel da carreira, Bradley Cooper engordou 18 kg e caprichou no sotaque sulista para interpretar Kyle, nascido e criado no Texas, que serviu quatro turnos no Iraque como integrante da equipe de elite da Marinha. De volta aos Estados Unidos, dedicou-se a ajudar veteranos e lançou um livro de memórias no qual, entre outras polêmicas, chamou iraquianos de "selvagens" e descreveu o ato de matar como "divertido".

Em 2013, quando o roteirista Jason Hall já trabalhava em uma adaptação da obra para o cinema, Kyle, então com 38 anos, foi assassinado (o caso está em julgamento nos EUA). A viúva, Taya (interpretada por Sienna Miller, muito bem no papel), aceitou continuar com o projeto e deu mais material a Hall: filmes caseiros, cartas e e-mails do militar.

Em "Sniper", Kyle é um homem criado por um pai rude que o ensinou a atirar e a proteger os outros, um militar de inegável talento que, conforme se dedica cegamente à guerra, se distancia da família. A admiração pelo personagem é clara, mas suas falhas também: mostrá-lo chamando iraquianos de "selvagens", por exemplo, parece menos um apoio do filme ao termo do que uma representação do quão equivocada é a visão de Kyle.

Chris Kyle, o militar que inspirou o filme 'Sniper Americano', em foto de 2012
AP
Chris Kyle, o militar que inspirou o filme 'Sniper Americano', em foto de 2012

É uma pena que Eastwood não tenha tido a iniciativa de filmar duas perspectivas de um mesmo conflito, como fez em 2006, quando retratou a Segunda Guerra Mundial pelo olhar dos Estados Unidos (em "A Conquista da Honra") e do Japão (em "Cartas de Iwo Jima"). O cinema ainda deve uma grande produção que mostre o lado dos iraquianos, e em "Sniper Americano", como em tantos outros, o retrato é pouco desenvolvido.

Mas o novo filme de Eastwood se aproxima de "Cartas de Iwo Jima" ao retratar o custo humano da guerra. Se o longa anterior mostrava como o conflito separava os homens de suas famílias, "Sniper" argumenta que a separação pode continuar mesmo quando os combatentes conseguem voltar para casa.

Uma das cenas mais dolorosas mostra Kyle em um bar após ter voltado de um turno de nove meses no Iraque. Quando a mulher lhe telefona e pergunta porque não foi para casa primeiro, já que ela e os filhos têm saudades, ele responde: "Eu só precisava de um minuto."

"Guerra ao Terror"

Neste sentido, "Sniper Americano" é um belo complemento a "Guerra ao Terror", o filme de Kathryn Bigelow sobre um talentoso militar que se sente à vontade no Iraque, mas, de volta à vida normal, não consegue fazer algo tão banal quanto compras no supermercado. 

É um caso interessante de dupla influência. Se Bigelow ecoava Eastwood, apostando em cenas de ação mais íntimas, sóbrias, com certa cara de faroeste, Eastwood agora parece dar continuidade à reflexão de "Guerra ao Terror".

Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de 'Sniper Americano'
Divulgação
Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de 'Sniper Americano'

A meu ver, "Sniper Americano" é contrário à guerra não por posição política ou ideal pacifista, mas pelo que causa àqueles que são enviados a lutar. Não há glória, excitação ou humor nas cenas em que Kyle atira. Herói ou não, sua história é principalmente trágica, e a sensação ao sair do cinema é de consternação, não de alívio ou otimismo.

Talvez Eastwood pudesse ter defendido a mesma ideia a partir de um personagem menos condenável. Mas a visão simplista e maniqueísta de Kyle (os americanos como mocinhos e os iraquianos como bandidos) é compartilhada por muitos e merece ser discutida tanto quanto a dos agentes da CIA que cometeram tortura em busca de pistas de Osama bin Laden, mostrados em "A Hora Mais Escura", outro filme de Bigelow. O mundo, afinal, também é feito de pessoas que sujam as mãos, aceitam as justificativas e cumprem as ordens dos superiores - seja porque acreditam nelas, seja porque fazem seu trabalho.

Imagem do filme 'Sniper Americano'
Divulgação
Imagem do filme 'Sniper Americano'

Em uma cena de "Sniper Americano", o pai de Kyle afirma que "algumas pessoas preferem acreditar que o mau não existe". Eastwood não é uma dessas pessoas. Sua filmografia é marcada pela violência, um tema que vem tratando com cada vez mais complexidade desde "Os Imperdoáveis".

"Sobre Meninos e Lobos", "Cartas de Iwo Jima", "Gran Torino" e, agora, "Sniper Americano", são alguns títulos-chaves dessa nova fase do diretor - e não é coincidência que uma das frases mais memoráveis de "Os Imperdoáveis" ("É uma coisa e tanto matar um homem") ganhe nova versão na cena em que Kyle ensina o filho a atirar: "É uma coisa e tanto parar um coração."

A política de Clint

O que motiva muitas das críticas a "Sniper Americano" é o histórico político do próprio Eastwood, sobretudo o desastroso discurso que fez na convenção do Partido Republicano de 2012, quando falou com uma cadeira vazia para criticar o presidente Barack Obama.

No entanto, julgar "Sniper Americano" com base apenas neste momento seria ignorar as ambiguidades e complexidades do próprio Eastwood, que é membro do Partido Republicano, mas se opôs à Guerra do Iraque e fez filmes que podem ser interpretados como contrários à pena de morte ("Crime Verdadeiro") e a favor da eutanásia ("Menina de Ouro").

Eastwood (assim como Bigelow) faz um tipo de cinema que não é óbvio, que não preenche todas as lacunas, que oferece mais perguntas do que respostas. Simples e direto, o diretor prefere mostrar o que acredita ser essencial do que explicar e explicitar demais.

É por isso que seus trabalhos permitem tantas interpretações e por isso "Sniper Americano" pode receber elogios tanto da republicana Sarah Palin quanto da primeira-dama Michelle Obama. Mais do que uma qualidade, trata-se de um sinal de que Eastwood, ao contrário de muitos diretores e estúdios, ainda confia no público.

Veja o trailer de "Sniper Americano":

Siga as redes sociais do ON:

Curta a página do ON no Facebook

Acompanhe o ON no Google+

Siga o ON no Twitter

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas