Abandono e transformação caótica do Rio de Janeiro movem sensível "Campo Grande"

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo | - Atualizada às

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Filme terá sua primeira exibição no Brasil nesta sexta-feira (9) no festival do Rio. Diretora falou ao iG sobre como encarou a complexidade da proposta de seu filme: abandono materno

Falar sobre conflitos sociais no Brasil é uma prerrogativa que o cinema exerce há algum tempo, mas é raro ver um filme que combine essa ambição com uma trama de abandono materno. “Campo Grande”, novo filme de Sandra Kogut (“Mutum” e “Passaporte Húngaro”), é um desses felizes casos em que todo um contexto social alimenta uma narrativa sensível e focada na intimidade dos personagens.

Cena de
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Cena de "Campo Grande"

O filme terá sua première Brasil nesta sexta-feira (9) em sessão de gala no festival do Rio e terá sessões para o público ao longo do final de semana. Ao iG, Kogut revelou que o filme nasceu quando ela ainda estava rodando “Mutum” em 2006, baseado em Guimarães Rosa. “Tinha um momento em que a mãe dava seu filho para um desconhecido porque acreditava que dava para ele uma chance melhor de vida. Aquilo ficou comigo”.  

“Campo Grande” começa com uma menininha mexendo em um pequeno papel da Mega-Sena enquanto está sentada em frente a um edifício de Ipanema, bairro da Zona Sul carioca. Na cena seguinte, uma agitada dona de casa tenta ao telefone buscar orientações sobre o que fazer com aquela menina deixada ali, em frente ao seu prédio, com um papel que tinha seu nome escrito.

A cineasta Sandra Kogut
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A cineasta Sandra Kogut

Regina (Carla Ribas) é uma mulher de classe média que está vivendo um tumultuado divórcio e que se ressente do crescente afastamento da filha. A ideia do abandono, então, passa a ganhar forma e relevo no filme. “Fui a abrigos, fiz pesquisas”, conta a diretora, “me aproximei e vi como aquilo era complexo”.

A menina Rayane não foi a única deixada por sua mãe. Seu irmão Ygor também foi abandonado. “Campo Grande”, porém, não trata do abandono apenas pelo viés das crianças e se vale de um Rio de Janeiro em mutação, “uma transformação caótica”, para dar verniz aos conflitos internos dos personagens.  O filme empresta o nome de um dos muitos bairros da cidade que viraram canteiro de obras e que, talvez, remeta às origens de Rayane e Ygor.  

“Eles são muito diferentes. De cara, você só repara nessas divergências, mas as circunstâncias em que se encontram na vida fazem com que eles se reconheçam”, observa Kogut sobre a dinâmica que aos poucos vai se estabelecendo entre Regina e Ygor.

Um dos méritos de “Campo Grande” é a alternância de perspectivas no registro. O filme começa todo ele norteado pelo ponto de vista das crianças e aos poucos a narrativa vai recebendo inserções da perspectiva de Regina. Trata-se de um recurso que enriquece a proposta de Kogut enquanto cinema e faz da reflexão ensejada pela narrativa algo muito mais vivo, sensível e verdadeiro.  “Ao invés de julgar, eu queria mostrar como a vida é complicada para todo mundo”, explica a diretora ao confessar que essa mudança de ponto de vista foi algo que trabalhou na confecção do roteiro.

“Não é uma maneira tradicional de lidar com o ponto de vista dos personagens”, continua Kogut que admite ter adotado a estratégia para buscar esse entendimento pleno de um quadro tão complexo como o aventado por seu filme.

Regina reluta a encarar Ygor e Rayane como um problema seu, mas passa a se reconhecer nas crianças
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Regina reluta a encarar Ygor e Rayane como um problema seu, mas passa a se reconhecer nas crianças

Naturalidade

A alternância dos pontos de vista na narrativa não foi a única ousadia da cineasta carioca. Ela colocou as atrizes Carla Ribas, Júlia Bernat e Mary Sheila – filha e empregada de Regina - para morar no apartamento que serve como principal locação de “Campo Grande” antes das gravações. A diretora, que usou a preparadora de elenco Fátima Toledo (“Tropa de Elite”), também fez questão que os atores não lessem o roteiro previamente. “Foi tudo feito com muita naturalidade. Toda essa busca pelo ambiente ideal para contar a história”.

As crianças Ygor Manoel (nove anos) e Rayane do Amaral (seis anos) foram escolhas precoces de Kogut. “O Ygor foi o primeiro menino que eu testei”, revela a cineasta que seguiu com os testes para poder fazer uma decisão segura. “Me encantei com ele. Foi um teste muito rico. A Rayane veio de uma ONG de Campo Grande não muito tempo depois”. 

A experiência “bacana e enriquecedora” de filmar com crianças que nunca tinham atuado antes, serviu ao filme de uma maneira muito orgânica. “Campo Grande” cativa justamente pelo que tem de verossímil e a expressividade desses atores crus e desse roteiro pouco ensaiado contribuem para um retrato condoído e envolvente de uma realidade brasileira que todo mundo já ouviu dizer e que o cinema poucas vezes radiografou de maneira tão eloquente.

O menino Ygor, estreante no cinema, é uma presença poderosa em cena. Quando canta
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O menino Ygor, estreante no cinema, é uma presença poderosa em cena. Quando canta "Talismã" de Leandro e Leonardo é um convite às lágrimas

Serviço:

09/10 – Cinépolis Lagoon 1, 2, 3 e 4 – 22h30 (sessão para convidados)

10/10 – Odeon – 16h00 (Sessão terá debate com realizadores, produtores e elenco)

11/10 – Kinoplex São Luiz 2 – 16h30

11/10 – Kinoplex São Luiz 2 – 21h30

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