Como "O Segredo de Brokeback Mountain" mudou para sempre a indústria do cinema

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Nesta quarta-feira (9) filme de Ang Lee completa dez anos de seu lançamento nos cinemas. Marco cultural, produção virou parâmetro para transformações sociais que vieram depois

“O filme dos caubóis gays”. Quem não se lembra dessa pejorativa definição?

Há dez anos, “O Segredo de Brokeback Mountain” chegava aos cinemas dos EUA precedido de um Leão de Ouro em Veneza e muita polêmica. Jamais o cinema americano havia ofertado um filme sobre um romance entre dois homens, protagonizado por dois atores heterossexuais da mais alta casta e que propunha uma releitura do último bastião do cinema americano por excelência, o faroeste.

Imagem do filme 'O Segredo de Brokeback Mountain' (2005)
Divulgação
Imagem do filme 'O Segredo de Brokeback Mountain' (2005)

A chiadeira foi grande, mas os prêmios também. O filme de Ang Lee chegou em um momento em que a sociedade se ajustava a uma profunda transformação.

Difícil dizer se um filme que foi banido de alguns países, como a China, e alvo de diversos protestos ao redor dos EUA precipitou um movimento social que culminou no direito de casais homossexuais manterem uma união civil. Conquista, tanto no Brasil como nos EUA, posterior ao lançamento do filme.

Baseado em um conto publicado na revista americana The New Yorker em 1997, o filme rapidamente se tornou a mais altiva bandeira gay da época. Um sentimento que, dez anos depois e com filmes como “Azul é a Cor mais Quente” premiados em Cannes e discutidos abertamente em barzinhos, parece deslocado.

“A história apenas se recusou a me deixar”, contou Ang Lee à revista Out recentemente. Ele vinha de “Hulk” (2003), majoritariamente percebido como um fracasso e não estava disposto a mexer em um redemoinho como o que “O Segredo de Brokeback Mountain” sinalizava ser. O roteiro já passava de mão em mão por anos e parecia destinado à famigerada blacklist (como é conhecida a lista de ótimos roteiros que não veem a luz do dia em Hollywood).

Mesmo Heath Ledger, morto em 2008, estava hesitante quanto a aceitar o papel de Ennis Del Mar, o caubói que se descobre apaixonado por Jack Twist (Jake Gyllenhaal) nas gélidas montanhas do Wyoming e se recusa a aceitar esse sentimento. Ele teve que ser convencido pela namorada Naomi Watts. Quis o destino que durante a gravação do filme, que durou apenas dois meses, ele já estivesse com Michelle Williams, com que teve sua única filha, Matilda, e que no filme vive sua esposa.

No Brasil, a estreia se deu em 3 de fevereiro de 2016. Foto: DivulgaçãoPerguntado se tinha medo de interpretar um homem gay, Heath Ledger disse não temer o papel. “Apenas não ser maduro o suficiente para lhe fazer justiça”. Foto: DivulgaçãoJake Gyllenhaal e Heath Ledger resolveram começar a se beijar durante os ensaios para criar uma atmosfera de realidade para suas cenas de beijo e sexo . Foto: DivulgaçãoFoi o primeiro filme a ser lançado em DVD e Download digital simultaneamente . Foto: DivulgaçãoQuando recebeu o SAG de melhor ator por “Sangue Negro” em 2008,Daniel Day Lewis homenageou o então recém-falecido Heath Ledger e apontou o filme como um de seus favoritos. Foto: DivulgaçãoO principal pôster do filme foi inspirado no cartaz de “Titanic”, outro épico romântico com final triste. Foto: Divulgação

O papel de Ennis foi oferecido anteriormente a Mark Wahlberg, outro ator bastante identificado à macheza, que recusou por se dizer “assustado com as cenas de sexo”. Eram outros tempos. O próprio Wahlberg simula masturbar o jogador de futebol americano Tom Brady em uma cena do recente “Ted 2”.

O filme ainda ostenta as melhores atuações da carreira de seu par de protagonistas. Ambos indicados ao Oscar. Foram oito indicações no total, com três vitórias (direção, roteiro adaptado e trilha sonora).

“O Segredo de Brokeback Mountain” resiste como o grande injustiçado da era moderna do Oscar. Sua vitória como melhor filme era dada como certa, mas “Crash – no Limite” acabou sagrado vencedor. Uma surpresa desta natureza não costuma acontecer na principal categoria do Oscar, o que suscitou boatos de que a academia cedera a impulsos de preconceito.

A injustiça, porém, contribui para esse legado vivo e permanente que emana do filme.  “Uma das minhas cenas favoritas é quando Ennis vai a casa dos pais de Jake. É sobre repressão. Sobre aquela ausência doída. É uma cena e tanto. E eu a tinha logo no primeiro take”, relata Lee.

“O amor é uma força da natureza”, brada o slogan do filme.  Dez anos depois, “O Segredo de Brokeback Mountain” ainda é o filme que mais perto chegou de tangenciar essa realidade.

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