“Spotlight” mostra como jornalistas revelaram maior escândalo da igreja católica

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Elogio do bom jornalismo, filme não vilaniza a igreja, mas também não põe panos quentes na polêmica. Produção concorre a três Globos de Ouro no próximo domingo (10)

O cinema tem um fetiche especial pelos filmes de jornalismo. Não é para menos. A profissão oferece conflitos muito ricos dramaturgicamente como atestam filmes icônicos como “Todos os Homens do Presidente” (1976), “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), “Nos Bastidores da Notícia” (1985), “Rede de Intrigas” (1976), entre tantos outros. De quando em quando surge um grande filme tanto sobre o fazer jornalístico como sobre o jornalismo como ciência social. “Boa Noite, e Boa Sorte” (2005), de George Clooney é o último que a memória alcança que, além de dramatizar com louvor a atividade jornalística, investiga com rigor seus preceitos, fundamentos e objetivos.

Uma boa história:
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Uma boa história: "Spotlight" reverencia o jornalismo que é norteado pela verdade; esteja ela onde estiver...

Eis que dez anos depois surge “Spotlight – Segredos Revelados” (EUA,2015), de Tom McCarthy. Na superfície, um drama processual sobre como uma obstinada equipe de jornalistas desbravou um intrincado caso de acobertamento de escândalos sexuais pela igreja católica. Em essência, porém, é um filme interessado em homenagear o bom jornalismo, aquele ameaçado pela prevalência das redes sociais e pelo desinteresse crescente dos grandes anunciantes nos modelos tradicionais de publicidade.

 Dez filmes para ver antes de “Spotlight – Segredos Revelados”

Mais do que segmentar os jornalistas como heróis e a igreja católica como vilã, Tom McCarthy está interessado em mostrar como um bom jornalista deve duvidar constantemente e perseverar sempre.

Inspirado em fatos reais, o filme começa com a chegada do novo diretor de redação do Boston Globe. O judeu Marty Baron (Liev Schreiber) chega para comandar o principal jornal de uma cidade essencialmente católica com a missão de reforçar a relevância do jornal em um momento em que a imprensa escrita perde em importância para o online.

Sua primeira providência é destacar a equipe Spotlight, uma divisão que trabalha sem pressões de prazo em histórias que possam render furos, para investigar um caso de abuso sexual de uma criança por um padre que pode ter sido enterrado sem a devida investigação policial.

Ben (John Slattery), editor chefe do jornal, e Walter ‘Robby’ Robbinson (Michael Keaton), a princípio, hesitam em seguir com a diretriz de Baron, mas à medida que a Spotlight cava – e a sujeira vai aparecendo – se embrenham em uma reportagem que rendeu o prêmio Pulitzer (maior prêmio possível para uma reportagem).

O elenco, discreto e eficiente no todo, é um atrativo à parte de um filme dono de uma inteligência acima da média do cinema contemporâneo. Os diálogos são ligeiros e afiados; a estruturação do roteiro é impecável e os objetivos de “Spotlight” em matéria de cinema, condecoráveis.

A sujeira vai aparecendo conforme os jornalistas cavam...
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A sujeira vai aparecendo conforme os jornalistas cavam...

Michael Keaton pulsa como o coração do filme. É por meio de seu personagem, o jornalista mais questionador em cena, que o público vai formando sua opinião sobre o que vai descobrindo. O ator empresta toda a malandragem condoída atribuída a jornalistas. Ele já vivera alguns em sua carreira. Mark Ruffalo é outro digno de destaque. Ele incorpora até mesmo tiques daqueles jornalistas que babam por uma boa história.

Não existe a intenção de demonizar a igreja católica em “Spotlight”. Há, sim, a louvável intenção de expor como as pessoas que conduziam aquela investigação – não sem se espantar pelo caminho – reagiam às descobertas que faziam. Trata-se de uma lógica dramática interessante e que dá combustível a “Spotlight” enquanto cinema; mas mesmo esse interesse circunstancial não se impõe ao foco maior: o jornalismo enquanto ciência, enquanto vocação.

Michael Keaton: o coração de
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Michael Keaton: o coração de "Spotlight"

O fazer jornalístico em “Spotlight” não é menos sagrado para aqueles homens e mulheres do que é a igreja católica para os residentes de Boston. Esse olhar dispensado por McCarthy, que também assina o roteiro ao lado de Josh Singer, é muito lisonjeiro ao jornalismo, mas também muito consciencioso. 

Ao fim de “Spotlight”, o quarto poder, como o jornalismo é informalmente conhecido, é chamado à responsabilidade.  Não existem vitórias, apenas o dever cumprido. Melhor tarde do que não cumpri-lo.

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