“A Grande Aposta” faz chacota com Wall Street sem deixar de falar sério

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo | - Atualizada às

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Filme, que deve receber importantes indicações ao Oscar nesta quinta-feira (14), chega ao país com grande elenco e ótimas piadas sobre as circunstâncias absurdas que detonaram a última grande crise financeira a tomar conta do planeta

Baseado no best-seller “A Jogada do Século: The Big Short”, de Michael Lewis, “A Grande Aposta” propõe uma divertida incursão pelas engrenagens da crise financeira de 2008 que derreteu o crédito e, ainda hoje, se faz sentir pelo fato de que a economia americana ainda não recuperou a pujança de outrora.

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "A Grande Aposta": crise, riso e papo sério. Mas sem ser chato...

Dirigido por Adam McKay (“O Âncora”), o filme agrega a gravidade do documentário “Trabalho Interno” com o cinismo beligerante de “O Lobo de Wall Street” (2013), sem renunciar ao ritmo de thriller de “Margin Call – O Dia antes do fim” (2011). Tudo isso com o acréscimo de uma brilhante estrutura narrativa em que McKay, com os préstimos do roteiro assinado por ele mesmo e Charles Randolph, caçoa do sentimento de superioridade dos tipos de Wall Street no mesmo compasso em que ridiculariza nossa fascinação por tal universo. Fique atento para as participações especiais e de como elas se inserem nesta genial sacada.

O filme não necessariamente demoniza o capitalismo, mas sublinha seus excessos e picardias com humor, inteligência e sofisticação. A trama mostra como um punhado de personagens que não necessariamente estão inseridos em Wall Street, mas que de alguma maneira gravitam aquele universo, percebem com antecedência o que bancos, governo e opinião pública falharam em perceber: a bolha imobiliária que trouxe a economia mais sólida do planeta abaixo.

A agudeza do registro relativiza até mesmo o ‘economês’. McKay é hábil em traduzir o linguajar típico de Wall Street para a audiência. Seja por meio do narrador mauricinho, o banqueiro mais esperto do que parece defendido com destreza por Ryan Gosling ou por soluções visuais inesperadas e certeiras.

Jared Vennett (Gosling) ouve em um bar que um sujeito resolver apostar contra certos fundos de crédito imobiliário. O que parecia loucura, se mostra uma oportunidade para Vennett que passa a procurar empresas dispostas a fazer o mesmo investimento.

Mark Baum (Steve Carell), um judeu que ama odiar seu trabalho e que sempre teve um bom faro para farsas, resolve escutar o que Jared tem a dizer e o que Jared tem a dizer é o que Michael Burry (Christian Bale), um médico antissocial que leva jeito para ler números, previu com anos de antecedência. Ele viu o que ninguém mais queria ver. A onda de crédito fácil estava gerando uma onda ainda maior e opressiva de inadimplemento. 

Christian Bale em cena de "A Grande Aposta", que estreia nesta quinta-feira (14). Foto: DivulgaçãoBrad Pitt em cena de "A Grande Aposta", que estreia nesta quinta-feira (14). Foto: DivulgaçãoRyan Gosling em cena de "A Grande Aposta", que estreia nesta quinta-feira (14). Foto: DivulgaçãoSteve Carell em cena de "A Grande Aposta", que estreia nesta quinta-feira (14). Foto: Divulgação

Há, ainda, dois “investidores de garagem”, que enxergam na vindoura crise uma chance de dar o troco no restrito clube que é Wall Street. Interpretados por John Magaro e Finn Whitrock, os dois jovens tomam conhecimento da teoria de Burry e resolvem abarcá-la em seus investimentos. Para isso, eles contam com a consultoria de Ben Rickert (Brad Pitt), um desapaixonado ex-corretor que guarda opiniões duras sobre os desígnios de Wall Street.

Os diálogos são uma delícia; o ritmo, um alento; mas é o sentido que “A Grande Aposta” produz em seu final, sinalizando que nossos Robin Hoods são tão desajustados e questionáveis quanto aqueles que eles miram, que eleva o filme a outro patamar.

Por trás de todo o riso, muito bem elaborado, por sinal, há muito siso em “A Grande Aposta”.

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