"Boi Neon" explora potência visual do corpo e exige entrega de Juliano Cazarré

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Com cenas de nudez e sexo, filme problematiza questão de gênero e "quer afastar a ideia de normalidade" à espreita

Estreia desta quinta-feira (14) no cinemas, “Boi Neon” é o filme brasileiro mais premiado dos últimos anos. Desde “O Som ao Redor” (2012), um filme nacional, e pernambucano, não arrancava tantos elogios mundo afora.

Com prêmios nos prestigiados festivais de Veneza e Toronto, além da consagração no último Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, o filme de Gabriel Mascaro “faz parte de uma safra bacana que quer dar uma renovada no cinema nacional, mas sem desencadear uma revolta;  uma reforma. É um cinema de autor”, observa o ator Juliano Cazarré, protagonista do filme em bate-papo com a reportagem do iG.

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "Boi Neon" que estreia nesta quinta-feira (14)

Para Cazarré, que está no ar na novela “A Regra do Jogo” como o funkeiro Merlô, “Boi Neon” é uma bem-vinda contribuição a um cinema mais reflexivo e adulto. “Tem uma galera aí que traz um Brasil não tão rural, não tão ingênuo. Você vê o 'Casa Grande', o 'Que Horas Ela Volta?', é um Brasil diferente do que o cinema costumava mostrar. A classe média está aparecendo nos filmes."

Em “Boi Neon”, o ator dá vida a Iremar, um vaqueiro de curral que viaja o Nordeste, preparando os bois para as tradicionais vaquejadas. Apesar do trabalho bruto, Iremar sonha em ser estilista e passa o tempo vago desenhando vestidos para Galega (Maeve Jinkings), caminhoneira de dia e stripper à noite.

Esses dois personagens expõem o que Mascaro quer discutir com seu filme. A questão de gênero e como os limites impostos lá atrás estão ultrapassados. “É um filme sobre transformação. Ele acumula. Onde os homens estão reapropriando essa ideia do masculino”, comenta Gabriel Mascaro sobre esse Nordeste tão afastado das convenções que testemunhamos em seu filme.

“O Gabriel aponta para essa inadequação dos estereótipos. Um Nordeste crescendo, se industrializando”, opina Cazarré. Há uma demorada cena de sexo entre o personagem do ator e uma mulher grávida em uma fábrica de roupas. Bem explícita, ainda que não gráfica, a cena propõe uma inversão dos papéis tidos como tradicionais no jogo da sedução. É Geise (Samya de Lavor) quem seduz Iremar e inicia o ato sexual com ele. “Uma mulher que decide transar, grávida, mas que assume o seu desejo. Isso é uma coisa muito bonita. Muito forte. Um reflexo desse empoderamento feminino”, observa o ator sobre a cena.

Juliano Cazarré enaltece a beleza do empoderamento feminino flagrada em
Divulgação
Juliano Cazarré enaltece a beleza do empoderamento feminino flagrada em "Boi Neon"

Mascaro advoga a importância da cena, uma das mais longas de seu filme. “O cinema não tem tempo para mostrar um ato sexual do começo ao fim. E eu queria resgatar isso”. O olho do cineasta está mais do que nunca voltado para o corpo. A contemplação, desde as vaquejadas ao traquejo de Iremar com agulha e linha, passando pelo sexo, é claro, dita a regra em “Boi Neon”.

“Eu sabia onde estava entrando”, observa Cazarré. “O Gabriel deixou claro que queria explorar as potências visuais dos corpos femininos e masculinos, mas também dos animais”. Nenhum filme exigiu tanto desprendimento de Cazarré como ator. Além da demorada cena de sexo, o corpo de Cazarré é quase que um personagem à parte em cena, observado atentamente pela câmera onipresente de Mascaro. No chuveiro, urinando e, até mesmo, manipulando a coleta de sêmen de um cavalo.

Juliano Cazarré: lado feminino em evidência
Divulgação
Juliano Cazarré: lado feminino em evidência

“Essa cena (do cavalo) estava escrita para outro personagem. Eu tive bastante dificuldade em assumir. Virei para o Gabriel e disse: ‘Eu testou fazendo um filme de muita entrega, sabe? Você não pode fazer as escondidas (alterar a cena). Se você me convencer eu faço. Eu gosto de me jogar. De me arriscar como intérprete. Depois que eu vi e conheci os veterinários. A manipulação do animal. Eu relaxei”, relembra o ator.

Muito além da TV

Cazarré diz não temer a reação do público acostumado a vê-lo em “A Regra do Jogo” e se diz feliz com o resultado do filme, ansioso para que a produção seja descoberta. “Trabalhar como ator é difícil. Não dá para eu chegar querendo ditar o ritmo”, observa sobre o trabalho com atores menos famosos e amadores. “É mais de reagir ao que os outros estão propondo. É um jogo fascinante e muito recompensador se você permitir que seja.”

Mas a experiência de entrega de Cazarré não termina aí. Iremar é um homem rústico, sim, mas que agrega a essa condição o refinamento e a sofisticação de um homem vaidoso e interessado em moda. Cazarré teve que deixar transbordar todo o seu lado feminino para dar conta da complexidade do personagem. “Eu sou um cara que apesar de ter uma estampa muito masculina. Ser do esporte, garotão e tal, por outro lado também sou artista, gosto de passarinho, borboleta, música. Me alimentei dessas características para construir esse cara embrutecido, mas que aprecia roupas”.

O silêncio e o corpo dão concretude à contemplação de
Reprodução
O silêncio e o corpo dão concretude à contemplação de "Boi Neon"

O Nordeste de “Boi Neon”, um filme que clama por um olhar sem vícios do espectador, é um Nordeste que dá vez ao contraditório. “É um filme que se permite estar em suspensão”, opina Mascaro. “Tem esses personagens estranhos. Diferentes. Que você toma como exceções. O filme cria a ambiguidade apenas para afastar a ideia de normalidade”.

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