"Steve Jobs" é um filme que reúne virtudes e defeitos de seu biografado

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo | - Atualizada às

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Filme que ganhou dois Globos de Ouro no último domingo e deve receber nomeações no Oscar, estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas brasileiros depois de tumultuada trajetória

Aaron Sorkin disse que “Steve Jobs”, o filme cujo roteiro escreveu para Danny Boyle dirigir, se difere da realidade como uma pintura se distingue de um retrato. É uma definição acurada. O filme que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas brasileiros problematiza a figura de Steve Jobs, mas não o faz com a rigidez e ousadia testemunhadas, por exemplo, em “A Rede Social”, outro filme roteirizado por Sorkin sobre uma figura polêmica (Mark Zuckerberg) do mundo da tecnologia.

Cena do filme
AP
Cena do filme "Steve Jobs" que estreia nesta quinta-feira (14): um olhar agudo sobre um homem polêmico

Desde o início, “Steve Jobs”, o filme, passou por convulsões que muito lembram a tumultuada trajetória de Steve Jobs, o biografado. O filme seria produzido pela Sony que desejava contar com a mesma equipe responsável por “A Rede Social”. David Fincher e Aaron Sorkin foram contratados. Fincher pulou fora quando o estúdio não se engajou em assegurar Christian Bale para viver Jobs e por outras discordâncias criativas. O estúdio foi atrás de um astro que pudesse viabilizar financeiramente o filme. Leonardo DiCaprio foi contratado e Danny Boyle, que já o havia dirigido em “A Praia” (2000) juntou-se a bordo. DiCaprio saiu e o projeto estacionou na Sony.

Pouco antes de seguir para a Universal, os escândalos dos vazamentos por hackers de e-mails e documentos da Sony, mostravam a preocupação da então presidente do estúdio, Amy Pascal, com um “filme pouco vendável”.  Ela queria um astro para o protagonismo e não estava certa se Michael Fassbender (“X-men: Dias de um Futuro Esquecido” e “Shame”) era esse astro.

Com Fassbender como Jobs, “Steve Jobs” chega ao cinema como um filme muito mais interessante e complexo do que “Jobs” (2013), aquele filme protagonizado por Ashton Kutcher e lançado pouco depois da morte de Steve Jobs.

Boyle e Sorkin, a partir do livro “Steve Jobs” de Walter Isaacson, examinam o personagem em três momentos chaves de sua trajetória profissional e deixam transparecer as fissuras de um homem aferrado a suas convicções e extremamente solitário.

Fassbender, presente em todas as cenas, penetra a pele de Steve Jobs com energia e desprendimento. Não ousa julgar o personagem, mas tem a seu favor o talento de Sorkin para adornar grandes diálogos e colocar a audiência a seu lado.

Divulgação
"Steve Jobs": o gênio e a genialidade do personagem são tateados pelo filme

Boyle filma esses três momentos da vida de Jobs, que podem ser superficialmente descritos como sua derrocada na Apple, a retomada do controle da empresa e sua volta por cima, quando conseguiu tornar real sua visão, com muita engenhosidade.

Em 1984, no lançamento do Macintosh, a ação é filmada em 16mm, muito mais granulado. Em 1988, na ocasião do lançamento do NeXT, a opção foi pelo 35mm. Finalmente, para o lançamento do iMac em 1998, Boyle e o diretor de fotografia Alwin H.Küchler valeram-se do digital.

Kate Winslet venceu o Globo de Ouro por sua atuação no filme
Divulgação
Kate Winslet venceu o Globo de Ouro por sua atuação no filme

Trata-se de uma excelente apropriação da linguagem visual para pontuar a evolução narrativa, também, do personagem. No entanto, é a partir dessa excepcional construção visual que podemos atestar o maior defeito de “Steve Jobs” enquanto cinema. É um filme hiperbólico em seus predicados, outra característica emprestada de seu personagem principal. A trilha sonora é expansiva, as cenas são em sua maioria impactantes, mas há algo fora do eixo.

O todo não funciona tão bem. A excelência técnica e os diálogos cortantes de Sorkin até tentam esconder a frágil arquitetura dramática do filme, para não mencionar a condescendência que desabrocha vigorosa no fim da fita. “Steve Jobs” tenta ser tão espetaculoso quanto seu biografado e consegue, mas acaba negligenciando sua alma. Paradoxalmente, espelhando Jobs de uma maneira insuspeita.

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