"Carol" aborda com delicadeza amor entre duas mulheres nos intolerantes anos 50

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Filme tem uma cena de sexo entre Rooney Mara e Cate Blanchett que não provoca escândalo, mas cativa pelo erotismo sutil. "Carol" estreia nesta quinta (14) nos cinemas

O refinamento do cinema de Todd Haynes é legendário. “Carol”, seu mais recente filme, não foge à regra que o autor de joias como “Velvet Goldmine” (1998) e “Não Estou lá” (2007) patenteou no cinema contemporâneo. É um filme sobre uma história de amor, mas com o comedimento e a elegância que uma trama ambientada nos anos 50 pede. Ainda mais pelo fato de ser uma história de amor entre mulheres.

Rooney Mara e Cate Blanchett se apaixonam em
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Rooney Mara e Cate Blanchett se apaixonam em "Carol", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (14)

Não está entre as prioridades de Haynes o espetáculo da paixão ou o sensacionalismo do desejo. Por isso seu filme, embora assemelhe-se tematicamente ao premiado e cult  “Azul é a cor mais quente”, se afasta do filme de  Abdellatif Kechiche na forma, no tom e, principalmente, nos adornos narrativos que dão cor ao envolvimento de Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara).

Adaptado do romance “The price of Salt”, de Patricia Highsmith, o filme observa o recrudescimento de intolerância que marcou os anos 50 e faz um elogio do feminismo silencioso dessas duas mulheres que ousaram se amar e assumir esse amor – ainda que dentro das circunstâncias possíveis.

Esse subtexto, valorizado pelo roteiro de Phyllis Nagy, ganha mais relevo pelas opções estéticas e narrativas de Haynes. O cineasta, no entanto, não deixa se esvair o apelo da história de amor entre essas duas mulheres solitárias. Uma, Carol, aproxima-se da famigerada idade da loba. Sobram frustrações e lhe falta aquela ousadia de perseguir seus desejos. Falta, também, alguém que lhe dê a exata motivação. Abby (Sarah Paulson) fora uma amante ocasional que lhe serviu para afirmar sua sexualidade, mas não é aquela que lhe tira o fôlego. Essa representação surge na figura de Therese, que não está certa ainda do que quer da vida, mas parece movida por uma curiosidade alienígena. Isso comove Carol, para desespero de seu marido Harge (Kyle Chandler), um homem que não aceita as escolhas de sua esposa e usa a filha como chantagem para manter um casamento já desmoronado.

As atrizes estão irretocáveis. A entrega de Blanchett a sua personagem é enternecedora. O recato, a angústia contida, a lenta ousadia, a surpresa, a renúncia, o desespero... A atriz tangencia as muitas fases pelas quais sua personagem atravessa no longa com minimalismo e congraçamento.  Rooney Mara não fica atrás. Ela introduz em sua personagem a fascinação que desperta em Carol e seduz o público no mesmo compasso.

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"Carol": Cate Blanchett e Rooney Mara devem ser indicadas, mas"Carol" pode receber nomeações para filme, roteiro, direção de arte, entre outros

Se é um filme interiorizado em suas proposições e generoso com suas atrizes e personagens, “Carol” é menos climático do que os filmes da temporada de premiações costumam ser. Um pormenor que pode eclipsar o filme no vigente calendário, mas que deve torná-lo mais perene do que seus concorrentes.

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