Pelo Oscar, Leonardo DiCaprio come o pão que o Diabo amassou em "O Regresso"

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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O iG já viu o filme que lidera a corrida pelo Oscar em 2016 com 12 indicações. O mexicano Iñárritu põe DiCaprio no centro de um conto doloroso sobre sobrevivência e o desejo de vingança

Alejandro González Iñárritu disse em uma recente entrevista que “O Regresso”, líder na corrida ao Oscar em 2016 com 12 indicações, deveria ser assistido em um templo. O novo filme do diretor de “Birdman” e “Babel” é mesmo um tipo de cinema que merece ser apreciado de uma maneira muito especial e não há templo mais propício para se apreciar um filme do que o cinema.

Leonardo DiCaprio em cena do filme
Divulgação
Leonardo DiCaprio em cena do filme "O Regresso": o desejo de vingança fomenta o instinto de sobrevivência

Filmado à luz natural e em condições adversas, tudo em nome de uma mise-en-scène radical, “O Regresso” é um filme que pede total imersão do público em uma trama que combina silêncio, crueza, sofrimento e gana. De viver e de matar.

Leonardo DiCaprio vive Hugh Grass, um homem que tem em si sangue índio e sangue branco. Grass é um caçador nato e disponibiliza sua expertise para que homens brancos consigam trafegar em meio a território selvagem e preservar suas vidas na América do século XIX.

Uma série de infortúnios testam os limites da tolerância deste acordo tão frágil de convivência entre Grass e o grupo comandado pelo capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson). Dentre os quais, o famigerado ataque de uma ursa a Grass. Hiper-realista, chocante e tensa, a cena é filmada por Iñárritu com a clemência de um empresário fechando um negócio. A aflição de Grass, no entanto, estava apenas por começar.

Abandonado para morrer por homens em fuga tanto do rigoroso inverno que assola aquela região montanhosa quanto de uma perigosa tribo, Grass – como uma espécie de Lázaro – volta dos mortos para se vingar daquele que responsabiliza pela maior desgraça de sua vida, John Fitzgerald (Tom Hardy). Fitz, que desde o início questionava a relevância de Grass para o grupo, encarna o desejo de vingança desse moribundo obstinado.

Contemplativo ao extremo, Iñárritu parece querer tangenciar os mais primitivos instintos humanos e vale-se de algumas metáforas visuais e textuais para garantir que o espectador dê-se conta disso. Essa exacerbação narrativa mais do que um cacoete, é uma característica desse cinema em que o realizador reclama total domínio cênico e do desenvolvimento dramático.

Nesse sentido, pode afastar alguns espectadores em virtude do ritmo lento, da vastidão das florestas demoradamente enquadradas e dos silêncios entrecortados pelos grunhidos de um agonizante Leonardo DiCaprio, mas quem se dispuser a absorver a proposta de Iñárritu terá uma experiência bastante semelhante a que se busca em um templo.

Leonardo DiCaprio e Alejandro González Iñárritu: favoritos ao Oscar na avaliação das casas de apostas de Las Vegas
Divulgação
Leonardo DiCaprio e Alejandro González Iñárritu: favoritos ao Oscar na avaliação das casas de apostas de Las Vegas

Tecnicamente altivo, “O Regresso” confia na capacidade de Leonardo DiCaprio em deflagrar na audiência as emoções mais contraditórias. É um trabalho difícil para um ator, porque é extremamente corporal e físico – duas coisas diferentes, mas que Iñárritu exige que seu protagonista alinhe com desprendimento, rigor e dedicação.

Em um filme que versa sobre os mais soterrados instintos de nossa humanidade, confiar a eficácia de seu filme ao instinto de um astro hollywoodiano demonstra a destreza dos instintos do cineasta mexicano enquanto um homem do cinema.

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