“Tangerine” captura melancolia da cena transgênero de Los Angeles

Por Reinaldo Glioche ,iG São Paulo |

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Filmado com um telefone celular, produção valoriza diversidade sexual e de gênero no mesmo compasso em que problematiza contexto social que ilumina

O nova-iorquino Sean Baker, egresso do cinema independente americano, tem tudo para chamar mais atenção ainda para si depois de “Tangerine”, que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas brasileiros.

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "Tangerine"

Rodado inteiramente com um telefone celular, uma steadicam e lentes adaptáveis, o filme de pouco mais de 80 minutos acompanha Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez), transexual e prostituta que tão logo sai da prisão fica sabendo que seu namorado Chester (James Ransone), que também é seu cafetão, a traiu com uma “rachada”, a cisgênero Dinah (Mickey O´Hagan). Enciumada e francamente enfurecida – ela foi para a prisão para ajudar a livrar a cara do namorado por tráfico de drogas – ela passa toda a véspera de Natal procurando por Chester e aquela que ela pensa ser sua amante.

Baker captura uma Los Angeles melancólica, aturdida por desejos submersos na solidão e sordidez do submundo da prostituição e das drogas.

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Alguns quarteirões e um punhado de personagens extremamente vívidos e tocantes capturam a atenção do público com efervescência. Como a principal amiga de Sin-DeeRella, Alexandra (Mya Taylor). Outra transexual que sonha em cantar e passa o dia na expectativa da apresentação que fará em um bar nos arredores de onde faz ponto.

Sin-Dee Rella e a inseparável amiga Alexandra em
Divulgação
Sin-Dee Rella e a inseparável amiga Alexandra em "Tangerine"

Há, ainda, Dinah, um produto do seu meio de exploração e abandono e que, a cada momento que pode, expõe a tristeza expressa nas atitudes de Sin-Dee e Alexandra. Já o taxista armênio Razmik (Karren Karagulian), casado, ronda o quarteirão em busca de aventuras com travestis.

Baker flagra a contradição desses personagens com uma exuberância ensimesmada. A linguagem, por meio da câmera incomum colada quase que o tempo todo nos personagens, reforça o senso de urgência da busca de todos eles por alguma relevância espiritual, emocional, sexual e amorosa.

Conjugando cenas dramáticas com outras de pleno humor, “Tangerine” é um achado de um cinema francamente independente. Extremamente original em sua articulação narrativa e na proposição dos personagens, o filme tem seu clímax em uma cena memorável ambientada em uma loja de donuts.

Toda a dor de um universo de desejos que o espectador pode, a princípio, resistir em se reconhecer nele, explode em uma rocambolesca discussão conjugal de muitas facetas e partes.

“Tangerine” é, por fim, o tipo de oxigênio que o cinema enquanto arte precisa para seguir vivo.

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