“A Garota Dinamarquesa” é delicado registro do nascimento da transexualidade

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Novo filme do diretor de "Os Miseráveis" e "O Discurso do Rei" mostra caso do primeiro homem que fez cirurgia para mudar de sexo e concorre ao Oscar em quatro categorias

Uma das grandes belezas de “A Garota Dinamarquesa”, filme que se ocupa das circunstâncias que levaram à primeira cirurgia de redesignação sexual no início do século XX, é a maneira como a transformação de Einer Wegener (Eddie Redmayne) em Lili Elbe reafirma seu amor e cumplicidade com a esposa Gerda (Alicia Vikander).

Eddie Redmayne captura com vigor desaparecimento de Einer Wegener em Lili
Divulgação
Eddie Redmayne captura com vigor desaparecimento de Einer Wegener em Lili

Einer é um pintor de paisagens e ocupa relativo destaque na cena aristocrática dinamarquesa. Ele e Gerda, que é uma pintora de retratos, são jovens e mais liberais do que a época estabelece. Um belo dia, Gerda pede que Einer vista peças de vestuário femininas para que ela possa agilizar um retrato de uma modelo atrasada. Aquele momento, flagrado com a devida incipiência por Tom Hooper, detona em Einer um ultimato intimo há muito adiado.

Einer passa a demonstrar cada vez mais sua feminilidade, seu apreço pelos adornos e costumes femininos. Em tom libertino, Gerda acolhe essa tendência do marido como uma apimentada brincadeira a fustigar a intimidade do casal. Mas Lili, como esse desorientado alter ego de Einer é nomeado, é uma presença que vai se impondo ao convívio do casal e reclamando propriedade não só sobre o corpo de Einer, como sobre seus sonhos – como entrega uma das cenas mais sutis e bem urdidas do filme de Hooper.

“A Garota Dinamarquesa”, adaptado do livro homônimo de David Ebershoff, é um sensível e delicado exercício de compreensão do que leva uma pessoal a buscar a transexualidade. O contexto de Lili era ainda mais desorientador porque não havia sequer um conceito a abarcar sua inquietação. Nesse sentido, o filme se prova de grande valor pedagógico, além de riquíssimo do ponto de vista dramático.

Eddie Redmayne, que volta ao Oscar no ano seguinte ao seu triunfo por “A Teoria de Tudo”, não se avexa de expor toda a feminilidade possível de seus traços em uma atuação tão sutil quanto delicada. O ator vai ficando mais feminino à medida que Lili toma posse do corpo de Einer. Esse desabrochar é conduzido por Redmayne com a segurança de um legítimo vencedor do Oscar.

É Vikander, no entanto, quem reclama o fôlego do público. Ela dá a sua Gerda a força de uma mulher independente e a fragilidade de alguém que não sabe exatamente o que o futuro lhe reserva. A atriz tangencia as emoções contraditórias e complexas pelas quais sua personagem, que vê seu marido em sofrimento agudo desaparecer para dar vida a uma mulher que residia dentro dele durante todo o tempo em que foram casados, com sobriedade e encantamento.

Cena do filme
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Cena do filme "A Garota Dinamarquesa"

São os dois atores, por fim, que dão força a este drama sensível, sim, mas também quadrado em suas proposições visuais e arranjos narrativos. Se Tom Hooper alia-se ao rigor acadêmico para contar uma história sobre a corajosa busca por si mesmo, seus atores libertam o filme do esquematismo lhe aferindo brio, vulnerabilidade e afeto.

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