Para fazer justiça a DiCaprio, Oscar deve cometer injustiça com outros atores

Por Reinaldo Glioche , iG São Paulo |

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Apenas Eddie Redmayne já ostenta um Oscar por atuação entre os indicados. Bryan Cranston, o mais velho entre os nomeados, é, também, o que apresenta o melhor desempenho

É indiscutível que os cinco atores nomeados ao Oscar de melhor ator em 2016 estão no auge da carreira e defendem trabalhos vistosos. Leonardo DiCaprio, indicado pela quinta vez por “O Regresso”, é o favorito declarado ao prêmio. Mas Michael Fassbender (“Steve Jobs”), Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”), Matt Damon (“Perdido em Marte”) e Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”) são rigorosamente as melhores atrações dos bons filmes que estrelam.

Da esquerda para a direita: Bryan Cranston, Matt Damon, Michael Fassbender, Eddie Redmayne e Leonardo DiCaprio
Montagem/Reprodução
Da esquerda para a direita: Bryan Cranston, Matt Damon, Michael Fassbender, Eddie Redmayne e Leonardo DiCaprio

Trata-se de uma seleção muito boa, mas não deixa de ser imperioso notar que DiCaprio pode finalmente conquistar sua tão esperada estatueta pelo trabalho mais fraco de sua carreira em muitos anos. Não só. Ele defende a atuação menos interessante entre as indicadas.

Pelo papel de Hugh Grass, Leonardo DiCaprio oferta aquele tipo de atuação que costuma render prêmio. Se submete a uma grande provação física e entrega o seu corpo aos caprichos de um diretor.  Essa estratégia já rendeu Oscar a Daniel Day Lewis (“Meu Pé Esquerdo”), Robert De Niro (“Touro Indomável”) e Matthew McConaughy (“Clube de Compras Dallas”).

Não há um arco dramático encorpado para seu personagem. DiCaprio sofre, agoniza em cena e se submete a circunstâncias extenuantes para qualquer ator. Por isso, e mais seu histórico no Oscar, deve ser consagrado o melhor ator em 28 de fevereiro, quando a cerimônia do Oscar será realizada.  

O melhor desempenho entre os cinco selecionados é o de Bryan Cranston. O eterno Walter White assume seu primeiro protagonismo no cinema após se despedir do chefão das drogas da série cult “Breaking Bad”. E é um papel talhado para o talento do ator. Como o roteirista comunista Dalton Trumbo, perseguido por um Congresso americano cioso de caçar direitos civis em face do que chamava de “ameaça comunista”, Cranston empresta charme e carisma para fazer com que o público entenda Trumbo e suas circunstâncias. É uma atuação cheia de nuanças e que presta um grande serviço à narrativa. Não a ofusca ou a sintetiza, como em outros casos presentes na lista do Oscar.

Cranston defende um tipo de trabalho muito apreciado pelos atores, o que ajuda a entender o fato dele representar a única indicação de “Trumbo: Lista Negra”, um filme que talvez merecesse mais carinho do Oscar. Mas o forte hype por DiCaprio impossibilita maiores ambições na noite da premiação.

Bryan Cranston em cena de
Divulgação
Bryan Cranston em cena de "Trumbo: Lista Negra": o melhor desempenho entre os cinco indicados

Vencedor em 2015 por “A Teoria de Tudo”, em que basicamente imitava os trejeitos do físico Stephen Hawking, Eddie Redmayne volta à disputa neste ano por “A Garota Dinamarquesa”. Dessas ironias da vida, seu desempenho no filme que chega aos cinemas brasileiros neste final de semana é muito superior ao do filme pelo qual foi premiado. Um segundo Oscar, porém, é improvável.

A atuação de Redmayne é a mais sutil entre os indicados e realça a sensibilidade de uma história que versa sobre as circunstâncias do primeiro homem a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo.

Matt Damon, que já concorreu ao Oscar pelo roteiro de “Gênio Indomável” (1998), pela atuação neste e em “Invictus” (2009), volta ao Oscar pela interpretação do biólogo perdido em marte no filme “Perdido em Marte”. Sob muitos aspectos, a atuação de Damon é o pulmão do filme de Ridley Scott. Seu trabalho é tão minucioso, nos aspectos dramáticos do filme, mas também na forma inteligente com que alinha o humor, que Damon conseguiu a proeza de ser indicado por uma ficção-científica. Algo raríssimo nas categorias de atuação no Oscar. É um caso clássico, portanto, daquela máxima “a indicação já é uma vitória”.

Imagens do filme
Reprodução
Imagens do filme "Steve Jobs"

Por último, Michael Fassbender – um dos atores mais interessantes do cinema nos últimos cinco anos – recebe sua segunda indicação ao Oscar pelo papel principal do filme “Steve Jobs”.

Fassbender, que concorrera há dois anos como coadjuvante por “12 Anos de Escravidão”, é literalmente a alma do filme de Danny Boyle. Uma produção em certo nível problemática, que tem em seu protagonista um alento e tanto. Fassbender impregna seu Jobs de nervosismo, receio, ambição e, acima de tudo, humanidade. Presente em todas as cenas, ele se serve da dinâmica narrativa robusta do filme para possuir o personagem com muita propriedade.

Apesar do grande trabalho, Fassbender – que brilhou recentemente em filmes diversos como “Shame” (2011), “Um Método Perigoso” (2011), “O Conselheiro do Crime” (2012) e “Frank” (2014) esbarra na longa fila de Leonardo DiCaprio. O Oscar tem seus caprichos.

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