Arnaldo Baptista trocou o irmão por amplis valvulados: “não quero saber dele”

Por Caio Menezes , iG São Paulo |

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Ex-Mutante revela ao iG ON que se afastou de Sérgio porque ele falou mal de equipamentos analógicos. “Eu pensei ‘que burro, nunca mais vou tocar com ele’ e tem sido assim”. No Carnaval, ele se apresenta no festival Psicodália, em SC

No dia 1º de janeiro deste ano, Arnaldo Baptista comemorou pelo Facebook seus 33 anos de vida. Apesar de ter nascido em 1948 (e em um 6 de julho), foi há 33 anos que o ex-Mutante tentou se matar ao se jogar da janela de um hospital psiquiátrico em São Paulo e, por sorte, sobreviveu, apesar de ter perdido massa encefálica. Desde então, os Mutantes e seus integrantes, Rita Lee e Sérgio Dias Baptista, não fazem mais parte da vida do músico.

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Arnaldo Baptista aposta nas artes plásticas, na carreira solo e garante que não voltaria aos Mutantes
Reprodução
Arnaldo Baptista aposta nas artes plásticas, na carreira solo e garante que não voltaria aos Mutantes

"O Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele", contou Arnaldo em entrevista por telefone ao iG. Mas apesar de toda essa mágoa que cerca o fim do grupo paulistano, que não foi bem explicado até hoje, a banda segue rendendo frutos.

O cantor será atração do festival catarinense Psicodália
Reprodução
O cantor será atração do festival catarinense Psicodália

Tanto que um livro com fotos inéditas do trio paulistano está sendo produzido pela fotógrafa Leila Lisboa, que tenta arrecadar R$100 mil em um crowdfunding para publicar o projeto. "Ela registrou os nossos ensaios e era legal porque eu não conseguia posar", lembrou.

Focado em sua carreira solo, Arnaldo já começa 2015 a todo vapor. Ele será a atração principal do festival Psicodália, que rola em Santa Catarina no carnaval, e acabou de comemorar os 40 anos de "Lóki?", seu álbum mais icônico, completos no ano passado. "Quando eu era criança, 40 anos era uma idade avançada, e agora o LP faz 40 anos", comentou.

Na entrevista a seguir, Arnaldo Baptista fala sobre seu próximo álbum, "Esphera", seu trabalho com artes plásticas e de suas lembranças da época de Mutantes: "Sinto falta do lado circense da Rita".

iG: O que o público pode esperar do show do Psicodália?
Arnaldo Baptista: Eu ainda não sei como vai ser o show, faço o roteiro de acordo com o que pintar no astral. Mas vai ter piano e teclado. Se tiver um clima caipira, toco "2001". Também toco coisas dos Mutantes, do Lóki e do próximo LP, "Esphera". Eu espero que as pessoas levem o lado psicodélico bem a fundo no festival.

iG: Você conhece alguma das outras bandas do festival?
Arnaldo Baptista: Fiquei sabendo que alguém do Jethro Tull vai tocar. Vai ser interessante ver, tem metais e flautas, mas também tem paulera.

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iG: Você gosta de alguma dessas bandas novas do Brasil?
Arnaldo Baptista: Não tenho contato com nenhuma banda nova, mas vai ser interessante ouvir O Terno. Também gosto do Zeca Baleiro, ele tem músicas bonitas no sentido de animais. Ele fala de macacada, de cachorrada, acho isso engraçado

Arnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: ReproduçãoArnaldo Baptista: 'Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele'. Foto: Reprodução

iG: "Lóki?" completou 40 anos em 2014. Como foram as comemorações?
Arnaldo Baptista: Foi uma loucura. Quando era criança, 40 anos era uma certa idade e agora o LP faz 40 anos. Uma vez eu vi na TV que antes de voar tem que aprender a cair, e eu aprendi isso com esse LP.

iG: O que esse álbum representa para você?
Arnaldo Baptista: Era uma época de rebeldia, eu tinha um modo de vida diferente de todo mundo. Mas no disco eu tentei assimilar algo que coletasse o modo de vida do maior número de pessoas que eu conseguisse atingir. Agora, estou estupefato com o resultado. Mesmo sem guitarra, conseguiu ser paulera. Foi uma coisa marcante. O legal é que o pessoal me acompanha, mesmo aos trancos e barrancos.

iG: Está rolando um projeto para o lançamento de um álbum de fotos inéditas d'Os Mutantes. Você já viu essas fotos? O que achou?
Arnaldo Baptista: Eu vi algumas fotos. A Leila [Lisboa, responsável pelo projeto] é uma pessoa muito interessante, ela deixa tudo passar. Houve muita tristeza e choro, mas isso é normal, ela é sutil. Ela registrou os nossos ensaios e era legal porque eu não conseguia posar. Eu ainda não vi todas as fotos, mas a Lucinha [Barbosa, companheira de Arnaldo] disse que são interessantes. Boto fé na Leila. É difícil atingir o objetivo de R$ 100 mil, mas tem que botar fé.

Arnaldo Baptista está produzindo 'Esphera', seu próximo álbum
Reprodução
Arnaldo Baptista está produzindo 'Esphera', seu próximo álbum

iG: Do que você sente mais falta daquela época?
Arnaldo Baptista: Sinto falta do lado circense da Rita, ela botava a gente fantasiado no palco. Também sinto falta de amplificadores analógicos, não gosto de amplificadores digitais. Mas nem nos Beatles havia amplificador analógico, eu me sentia isolado por isso. Mas um dia fui na casa de um senhor que comprou todos os alto-falantes e ligou em amplificadores valvulados. Tinha um que eu nunca tinha ouvido e fiquei embasbacado. Foi melhor do que tudo que eu já tinha ouvido.

iG: Em uma entrevista recente você disse que não gosta mais do seu irmão e a Rita faz parte do seu passado. Você não tem mais contato algum com eles?
Arnaldo Baptista: Meu irmão sabia que eu não gosto de amplificadores digitais e na nossa última viagem ele falou que os valvulados são frágeis e difíceis. Eu pensei "que burro, nunca mais vou tocar com ele" e tem sido assim. Não falei pra ele, mas devia ter falado. Naquela época eu queria amadurecer mais e preferi ficar em silêncio.

iG: Você voltaria aos Mutantes?
Arnaldo Baptista: Meu passado tem dois lados, um que é bonito e outro obscuro. Os Mutantes abriu sentido bonito na minha vida, me deu contatos bonitos, foi uma época interessante. Mas as coisas não são como a gente queria. A banda foi andando até que a Rita Lee saiu. Foi para o lado progressivo e eu já não gostei muito. Ficou tudo muito digital, sem uma profundidade cultural. Então o Sérgio faz o Mutantes e eu faço minha carreira, não quero saber dele.

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iG: Como é a sua relação com Gilberto Gil, Caetano Veloso e outras pessoas com quem você trabalhou no auge dos Mutantes?
Arnaldo Baptista: É muito difícil, Caetano sempre foi longe, Gil foi mais próximo, mas não tenho contato. Cada um foi por seu caminho. Quando o Gil era ministro da cultura, eu fui até Brasília atrás de dinheiro para lançar um livro, mas ele disse que não poderia me dar porque ele era o ministro, não o ministério. Então fica nessa coisa, tento contato e às vezes consigo, às vezes não. Mas não fico magoado com isso, eles têm a privacidade deles e eu respeito.

iG: Você ainda pretende lançar o álbum "Esphera"? Como estão os trabalhos?
Arnaldo Baptista: Estou gravando esse LP com o que posso fazer em casa. Já tem umas 10 músicas prontas. Nessas músicas eu critico a vida humana, coisas como a poluição, que está sendo enorme. O homem não tem que queimar nada, é uma maldição queimar. Eu acredito em coisas como evitar comer carne e usar carros elétricos. É uma involução genética, a gente tende a comer matando. É assim que o LP vai levando.

iG: Como você concilia a música e as artes plásticas? O que te inspira a pintar?
Arnaldo Baptista: Ao mesmo tempo eu me aventuro a pintar e é uma vocação que eu não tenho há tanto tempo como a música. Já lancei mais de 100 músicas, mas tenho só três exposições. Minha arte é baseada no exorrealismo, que fala sobre o êxodo, o exterior. Fala sobre a vida dos ETs, seus transportes, alimentação e sentimentos.

iG: Quais são seus planos para 2015?
Arnaldo Baptista: Como em casa de ferreiro, o espeto é de pau, eu quero amplificadores valvulados. Preciso de mais deles para fazer o show como quero, mas são caríssimos e não tenho dinheiro para comprar. Nenhuma companhia dessas que aluga equipamentos tem amplificadores valvulados, nem a do meu amigo que foi até os States de moto comigo. Mas como diz uma famosa frase, "perca seu sonho que você perde a cabeça", então esse meu sonho eu vou realizar.

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