MC Guimê: “Mesmo que a classe A não respeite, eles vão ter que engolir”

Por Caio Menezes , iG São Paulo |

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Funkeiro paulista planeja lançar seu primeiro álbum em 2015 depois de cinco anos nos palcos. Em entrevista ao iG ON, ele fala sobre sua ascensão na música, desde os shows pequenos em Osasco até o título de ídolo nacional. "Quem sabe daqui a 100 anos as pessoas lembrem de mim como um popstar"

Não há mais dúvida alguma de que MC Guimê é o rei da ostentação e o rótulo é facilmente explicado por quem passa cinco minutos sequer com o funkeiro. Com roupas de marca da cabeça aos pés e corpo coberto por tatuagens, o paulista não faz a menor questão de esconder a vida luxuosa que o funk lhe deu. "A ostentação entrou na minha vida", contou o cantor no escritório de sua produtora, no Tatuapé, onde recebeu a reportagem do iG.

MC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iGMC Guimê. Foto: Edu Cesar / iG

Depois de uma infância simples em Osasco, na Grande São Paulo, Guilherme Dantas começou a ganhar cada vez mais dinheiro graças ao funk. "Com 17 anos comecei a ganhar 10 mil por mês. O meu pai trabalhava o mês todo para ganhar dois, então eu ganhava cinco vezes mais fazendo o que eu gostava", disse. "Meu pai sempre trabalhou muito e foi mal remunerado para isso. Isso me trouxe uma revolta que eu consegui transformar em bravura. Então eu quero ser rico mesmo.”

MC Guimê tem 22 anos e mora em uma região nobre do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo
Edu Cesar / iG
MC Guimê tem 22 anos e mora em uma região nobre do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo

Junto com a grana, o músico ganhou ainda de brinde a fama, mas isso ele admite que poderia viver sem. "Por mais que você queria estar fazendo aquilo, tem coisas que acontecem que você não é obrigado a aturar", confessou. "Tem que encarar como trabalho, respirar fundo e bola pra frente.”

Na entrevista a seguir, MC Guimê fala sobre seu primeiro álbum, a experiência de ser garoto propaganda e a elitização de seu som: "eu sempre gostei de levar meu som para diversos lugares, desde a classe E até a classe A."

iG: Quais são seus planos para 2015?
MC Guimê: Quero terminar meu primeiro disco físico até julho. A gente sempre trabalhou na internet e os CDs eram de divulgação, promocionais. E agora a gente quer fazer um disco físico, bem trabalhado, com encarte e tudo mais. Se tudo der certo, a gente vai lançar no primeiro semestre. A gente está fazendo as primeiras músicas, que são só minhas, sem participações. Mas já temos algumas participações de artistas como MC Lon, MC Rodolfinho, Emicida e outra galera. A gente está planejando ainda, está sendo um projeto em andamento.

iG: Você sempre lançou suas músicas de forma quase independente. Como é a sua relação com as grandes gravadoras?
MC Guimê: Já rolou de gravadora grande vir atrás de mim, mas desde o começo da minha carreira eu sempre tive uma ligação com o Hugo Alencar [dono da Máxima Produtora]. Sempre tive uma consideração de que é mais do que um trabalho, então ele sempre foi como um pai para mim. Quando começou a rolar a parada, outras gravadoras e uma galera do mercado chegaram, mas ele sempre foi meu escudo pra me defender e ver qual era a ideia certa para fazer uma parceria. Mas outras gravadoras correram atrás e a gente não aceitou porque o trabalho sempre rolou independente, então é até difícil fazer uma parceria depois do que rolou. Depois do filho crescer e estar andando, é fácil querer fazer alguma parada. Sempre foi eu e ele na correria e vamos manter isso aí.

iG: Você acha que está levando seu som para um lado mais pop?
MC Guimê: Depende da composição. Desde moleque, quando eu comecei a escrever minhas músicas, isso acontece. Tem uma bem pop chamada "Olha Ela De Novo", mas eu não tinha essa ideia de entrar na TV porque meu trabalho nem tinha respeito para entrar. Mas eu já tinha a mentalidade de fazer um trabalho diversificado, diferenciado. Um era funk mais underground, mais tamborzão, outro era pop, outro era mais dançante. Cada um numa pegada diferente, sempre gostei disso. A "País do Futebol" foi um lance que a gente colocou bastante isso, colocou bastante pop, mas querendo misturar três coisas que eu sempre gostei bastante: o rap, o pop e o funk.

Guimê começou a se apresentar em casas noturnas aos 16 anos. Aos 17, ele já faturava R$ 10 mil por mês fazendo shows
Edu Cesar / iG
Guimê começou a se apresentar em casas noturnas aos 16 anos. Aos 17, ele já faturava R$ 10 mil por mês fazendo shows

iG: O funk tem mais identificação com a periferia, mas está cada vez mais entrando nas classes altas. Como é tocar em casas de show de alto padrão?
MC Guimê: No começo foi um susto, a gente não sabia se seria respeitado ou se daria certo. Mas quando a gente começou a subir no palco e viu que deu certo, se sentiu em casa. Porque a galera que vai aos shows, essa galera de classe A que até não cresceu na realidade do funk, realmente gosta da música e respeita a gente. A gente não tem por que ter esse preconceito. Se eles não têm com a gente, por que a gente vai ter com eles? Então eu sempre gostei de levar meu som para diversos lugares, desde a classe E até a classe A. Sempre nos respeitaram muito bem e por isso teve esse crescimento, e graças a Deus a gente está tocando nas casas mais top de São Paulo.

Hoje em dia, Guimê é considerado o maior nome do funk ostentação, ao lado do MC Gui
Edu Cesar / iG
Hoje em dia, Guimê é considerado o maior nome do funk ostentação, ao lado do MC Gui

iG: Você teve medo de tocar para as classes mais altas?
MC Guimê: No começo a gente pensou nisso, se isso faria bem pra gente mesmo. Não adiantava a gente fazer dinheiro lá, mas o público não gostar. Mas tivemos uma ótima recepção. A galera se identifica, mesmo quem nunca trabalhou e vê aquele moleque, igual eu que trabalho desde os 12, e tenho essa condição pensa "realmente, esse moleque é zica". A gente bate no peito e fala que fez por merecer estar aqui. Mesmo que a classe A não respeite, eles vão ter que engolir.

iG: Você acha isso irônico?
MC Guimê: Acho que é mais um grito de liberdade. Não são todas as pessoas que desrespeitavam, mas muitas desrespeitavam. Então o som é pra se curtir, mas pra quem desrespeitou foi um tapa na cara.

iG: Já te acusaram de ser vendido por tudo isso?
MC Guimê: Já me acusaram sim, principalmente pelo lance da novela ["País do Futebol" foi trilha da novela "Geração Brasil"]. O funk sempre foi uma parada de periferia, de tocar no som do carro, em baile funk. Então já rolaram esses comentários, mas a gente sempre tenta passar e mostrar que é nosso sonho. Quem sonha em fazer música no Brasil sonha em ter uma música na trilha sonora da novela, principalmente da Globo que é muito conceituada. Pra mim é um sonho realizado. A gente quer que o funk esteja em todos lugares, que invada lugares que as pessoas não imaginavam que iria chegar. Então eu sempre estou quebrando essas barreiras. Mas sempre vai ter alguém para fazer comentários negativos.

iG: Com toda essa história da ostentação, como é sua relação com os outros MCs?
MC Guimê: Falam que eu sou funkeiro ostentação, mas não, eu sou funkeiro, só. Ostentação entrou na minha vida. Com 16 anos eu ganhava um salário mínimo. Com 17 eu entrei no funk e comecei a ganhar 10 mil por mês. O meu pai trabalhava o mês todo para ganhar dois, então eu ganhava cinco vezes mais fazendo o que eu gostava. Aquilo era uma ostentação, era um valor surreal para mim. Eu pude comprar um carro com 17 anos, comprar a roupa que eu queria, uma corrente de ouro. Comecei a falar aquilo na minha música, que era a minha realidade, e o Emicida sempre olhou com bons olhos. Lá fora a galera sempre representou bastante isso. Eu sou fã de 2Pac e ele sempre levou isso no peito, de usar cordão de ouro e diamante porque batalhou por isso. Então desde o princípio eu tive esse instinto e a galera que conhece minha música e minha pessoa sempre fortalece. E o próprio Emicida, o KL Jay e a galera assim sempre me respeitou.

iG: Você já está no patamar de popstars como Luan Santana e Anitta. Como você se sente em relação a isso?
MC Guimê: Pra mim é uma grande responsabilidade. Eu sou fã deles, meus familiares são fãs. Eu fico bastante orgulhoso de mim mesmo e feliz com isso. Esse lance de me ver como uma estrela brasileira e uma pessoa que está levando a música brasileira para fora é uma maior responsabilidade ainda, porque lá eu chego entrando pela porta da frente, e a galera que recebe meu trabalho me elogia. Então é uma coisa que me faz pensar que realmente a música é mágica e a parada veio para marcar, fazer história. Quem sabe daqui a 100 anos as pessoas lembrem de mim como um popstar brasileiro.

iG: As crianças e adolescentes te veem como um modelo. Como você lida com isso?
MC Guimê: Eu vejo isso como merecimento. Nada acontece por acaso, se eu não fosse o cara para fazer isso, eu não estaria fazendo. Eu me lembro de como eu sonhava com isso há seis anos atrás. Eu fazia de tudo para imaginar eu ali em algum lugar, coisas nem parecidas com o que vivo hoje. Vejo isso com uma responsabilidade minha e que isso é uma parada que eu tenho que fazer bem, para não me arrepender no futuro. Quero deixar uma caminhada bela, uma história da hora.

Em 2015, Guimê vai lançar seu primeiro disco completo. A previsão é para junho
Edu Cesar / iG
Em 2015, Guimê vai lançar seu primeiro disco completo. A previsão é para junho

iG: A fama te incomoda?
MC Guimê: Incomoda em certos pontos. Sempre sonhei em ser rico porque minha família nunca teve uma boa condição, meu pai sempre trabalhou muito e foi mal remunerado para isso. Isso me trouxe uma revolta que eu consegui transformar em bravura. Então eu quero ser rico mesmo. Quero dar uma casa da hora para os meus pais, ajudar meus tios, meus primos, meus familiares. Quero que as pessoas olhem pra mim com outros olhos, não por eu ter dinheiro, mas por eu ser bem sucedido. A fama tem uma parada boa, mostra que você está sendo reconhecido e fazendo sucesso, mas também tem aquele lado mais pesado. Não é só um sonho, é um trabalho, uma parada que por mais que você queria estar fazendo aquilo, tem coisas que acontecem que você não é obrigado a aturar. Tem que encarar como trabalho, respirar fundo e bola pra frente.

iG: Você ainda tem algum sonho de consumo?
MC Guimê: É mais esse lance do luxo e do conforto. A vida e a tecnologia são coisas que vão se atualizando cada vez mais. Eu nunca vou brecar isso. Hoje quero um iPhone 6, mas daqui a cinco anos vou querer um iPhone 10, uma televisão melhor, um carro melhor. É isso, vou me adequando a esse mundo. Quero o melhor do conforto e do luxo para mim e meus familiares.

iG: Você ser garoto propaganda de uma marca foi uma vitória do funk ostentação?
MC Guimê: É uma vitória do funk ostentação, do funk e dos MCs que batalharam por isso. O MC Lon sempre batalhou muito para que o cachê dos MCs de São Paulo e da baixada fosse valorizado e isso acabou acontecendo. O funkeiro bem sucedido consegue ganhar até 15 mil por show. Antigamente, um funkeiro estourado ganhava 2 mil. Então foi uma batalha de vários MCs, depois desse lance do cachê e de TV, outros MCs já têm um caminho mais aberto. Então é a vitória de todos os MCs, do funk e a minha vitória também.

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