Em tom de pregação, "To Pimp A Butterfly" consolida carreira de Kendrick Lamar

Por Caio Menezes , iG São Paulo |

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Novo álbum do rapper norte-americano é uma verdadeira pregação municiada por uma mistura impecável de jazz, funk e rap

Em 2014, D'Angelo lançou o álbum "Black Messiah", seu primeiro trabalho desde "Voodoo", campeão de vendas em 2000. O cantor é uma das vozes mais importantes do R&B dos anos 1990, mas quem realmente merece o título de "Messias negro" no mundo da música é Kendrick Lamar, e ele prova isso em seu mais recente disco. Misturando acid jazz, R&B, funk e rap, "To Pimp A Butterfly" é uma espécie de pregação do rapper contra seus demônios internos e externos.

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Kendrick Lamar lançou
Reprodução
Kendrick Lamar lançou "To Pimp A Butterfly" nessa segunda-feira (16)

Convertido ao Cristianismo desde a adolescência, o cantor americano atua como um pastor com seu rap e assume essa posição, mesmo fazendo uma música que não tem nada a ver com o gospel. "Eu sou a coisa mais próxima a um pregador que muita gente tem. Minhas palavras nunca serão tão fortes como a de Deus, eu só sou um receptor fazendo seu trabalho", disse em recente entrevista ao "The New York Times".

Divulgação

"To Pimp A Butterfly" é uma pregação em muitos atos, contraposta pelas faixas "u", uma angustiante e pesada conversa do rapper consigo mesmo, e "i", o hino do amor-próprio que foi o primeiro single do disco.

Em tom confessional, as letras das músicas são tão fortes quanto a mistura de ritmos que Kendrick Lamar faz. Liricamente, "u" é a faixa mais pesada do álbum. Na música, o rapper tem uma crise existencial em relação ao sucesso. Ele se culpa pelo afastamento de sua mãe, questiona se realmente deveria ter saído de Compton, sua cidade natal, atrás de dinheiro e reconhece que é difícil amá-lo -- apesar de ter a mesma namorada há mais de 10 anos, desde a época do colégio.

Mas são dois episódios da vida do cantor que dão o tom angustiante da canção: a gravidez precoce de sua irmã e a morte de um de seus melhores amigos. Ele se culpa por não ter sido um bom irmão e por não estar nos Estados Unidos quando seu amigo foi assassinado -- e conta na letra da música que conversou com o colega pela internet em vez de visitá-lo.

As músicas de "To Pimp A Butterfly" revelam a depressão e outros problemas que a fama causou a Kendrick Lamar. Nas oito faixas entre "u" e "i", o demônio vira um personagem central no disco. Sob o nome de Lucy (acrônimo de Lúcifer, que é o anjo caído na crença cristã), o diabo tenta persuadir o cantor prometendo dinheiro e sucesso, principalmente em "For Free?".

"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução"To Pimp A Butterfly" consolida Kendrick Lamar como um dos maiores artistas desta geração. Foto: Reprodução

Em "i", o rapper se mostra liberto do demônio nos versos "eu passei por muita coisa/provas e turbulências, mas eu conheço Deus". E sua "pregação" faz referência a sua própria vida, quando ele foi salvo da guerra de gangues em Compton ao se converter.

Outra questão central do álbum é a posição de líder que o rapper assume, que fica evidente na faixa mais audaciosa do disco, "Mortal Man", música de 12 minutos que termina com uma conversa de Kendrick Lamar com o fantasma de Tupac Shakur -- na verdade, ele conversa com uma antiga entrevista do rapper morto em 1996. Na canção, Kendrick se compara a líderes como Nelson Mandela, Martin Luther King e Michael Jackson. No refrão, ele questiona: "quando a besteira atingir o ventilador/você ainda será um fã?".

Toda esse desabafo e pregação de Kendrick Lamar é sustentado por uma musicalidade impecável e inesperada. Os dois singles do disco, "i" e "The Blacker The Berry", dão bem o tom do álbum. O primeiro é uma excelente mistura de funk e jazz, com letra radiofônica e refrão pegajoso, enquanto o segundo é um rap com uma batida feroz e rimas raivosas ao melhor estilo "good kid, m.A.A.d city", álbum de 2012.

Os pontos altos de "To Pimp A Butterfly" são o excelente funk com cara de anos 70 "King Kunta" e "These Walls", que também remete à época da Motown. Assim como "The Blacker The Berry", "Hood Politics" também tem o rap em sua essência e remete ao disco anterior do cantor.

"good kid, m.A.A.d city" consagrou Kendrick Lamar como um dos maiores nomes do rap atual, mas "To Pimp A Butterfly" consolida o cantor como um dos maiores músicos de nossa geração. O novo disco não tem a perfeição musical do anterior, mas é o que fará o rapper ser lembrado pelas próximas gerações. E não será surpresa alguma se o álbum aparecer no topo das listas de melhores de 2015, porque quem quiser tirar esse título do disco terá que trabalhar muito para isso.

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