15 anos de Fresno: “Auge do sucesso foi quando estive mais problemático”

Por Natália Eiras , iG São Paulo |

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Banda gaúcha comemora aniversário com seu primeiro CD/DVD ao vivo, gravado em São Paulo. Vocalista Lucas Silveira fala ao iG sobre a trajetória do grupo e do mercado musical. “O showbiz está mais democratizado, mas ainda em transformação”

A banda Fresno está completando 15 anos de estrada e para comemorar gravou seu primeiro CD/DVD ao vivo, que chegou às lojas neste mês. Para o vocalista Lucas Silveira um dos motivos da celebração é o grupo ter continuado no mercado por tanto tempo em um momento de crise na indústria musical. “A gente sobreviveu a este vale que atingiu a cena”, disse o gaúcho em entrevista ao iG. “Rolou uma ressaca que limpou todos que queriam apenas surfar nesta onda.”

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O grupo se formou em Posto Alegre, em 1999
Divulgação/Luringa
O grupo se formou em Posto Alegre, em 1999

No balanço que ele faz da trajetória do grupo, no entanto, Lucas diz que essa depressão não foi o momento mais difícil da Fresno. Ironicamente, o período mais turbulento coincidiu com o boom da carreira da banda. “No auge do sucesso talvez eu estivesse mais problemático da minha cabeça do que agora”, revelou. “Foi um momento de um pouco de crise. Não saber o que quer realmente da vida. É uma coisa que muita gente passa, mas nós passamos quando éramos a banda mais falada do Brasil. Aquilo foi muito mais difícil do que qualquer época que estivemos comercialmente ruim.”

Tirando os contratempos, o vocalista enfatiza que os fãs foram cruciais na trajetória da Fresno. “É muito importante que [o grupo] mantenha o seu público, que não passe por eles, mas os leve”, afirmou. Ele ainda frisa que novos admiradores também devem ser cultivados: “Conquiste essas pessoas que estão entrando na adolescência musical. A gente é muito velho para ser uma banda teen, mas ainda tem menino de 14 anos que aparece em tarde de autógrafo.”

Lucas também faz um comparativo entre o mercado musical de quando eles começaram, em 1999, e agora. “Não há mais os guardiões da informação”, fala. “Não existe mais um sucesso absoluto. Antes a mídia era brutal, você tinha que escutar aquilo que estava tocando. O mercado está muito mais democratizado, mas em plena transformação”.

Divulgação/Luringa
"A gente ainda tem muito o que crescer", falou Lucas Silveira ao iG

Por fim, ele profetiza que a cena musical brasileira deve retomar o fôlego. “Sinto que está surgindo uma nova onda de novas bandas”.

Qual foi o critério para escolher o setlist do DVD ao vivo?
Tínhamos duas missões a serem cumpridas: a primeira era de mostrar que a banda tem 15 anos, músicas que abranjam toda a carreira, mas ao mesmo tempo não ser muito “revival”. A outra era fazer um show nosso como é hoje, e o que vamos fazer daqui para gente. Tem hits mais undergrounds até as músicas que ficaram realmente famosas, passando por um set mais maduro, mais atual. Como são 15 anos, a gente quis falar sobre tudo. Como sabíamos que lá estaria todos os fãs, não tínhamos tanto o medo de “ah, essa música ninguém vai conhecer”. Tem músicas que às vezes o grande público não conhece, mas no show é uma coisa bem louca.

Qual o balanço que você faz destes 15 anos de carreira?
A lição máxima que a pessoa nunca pode se acomodar, nunca pode parar, tem que se desafiar artisticamente. Uma banda que descobre uma coisa que dá certo e fica insistindo naquilo pode estar cavando a própria cova. Em diferentes graus, as pessoas querem ser surpreendidas, querem coisas novas, querem que aquela banda renove o sentimento que ela tem por ela. Você sempre tem que ir evoluindo, conquistar novos fãs.

Quando começaram a moda era ter franjão e cinto de tarracha. Muita gente falou que as bandas que surgiram junto com vocês era moda, que ia acabar. Vocês chegaram a pensar que era realmente tudo uma onda?
Quando o negócio estourou mesmo, quando caiu no grande público, foi quando começamos a experimentar a rejeição. Muito disso foi construtivo, mas também foi muito destrutivo para uma pessoa que está com a banda. A gente se blindava bastante. Cada banda respondeu a essa descrença de uma maneira, mas a gente fincou o pé, para as pessoas terem a percepção que nada daquilo foi inventado por uma gravadora. Realmente, as modas acabam, a gente tinha que ser independente, tomar o nosso caminho, não depender de uma cena inteira.

E agora, como é perceber que vocês já estão na estrada há 15 anos?
Acredito que é muito óbvio que a gente se viu, por mais que as pessoas tinham essa ideia da Fresno, que era uma ideia errada. Teve essa lição. Além de provar, a gente viu que muitos fãs mostravam o nosso disco, a pessoa dizia que era muito bom e depois falava que era Fresno, a pessoa tinha um ranço. A gente vai continuar fazendo o que a gente faz, a gente não vai ficar focando a sua carreira em quem não gosta de ti. Depois da gente, surgiram outras bandas que foram vítimas deste ranço e tem gente que resiste a isso. Tem gente que não tem confiança e acaba se rendendo a isso e tem outros que querem continuar.

Imagens da gravação do CD/DVD ao vivo no Audioclub, em São Paulo. Foto: Divulgação/LuringaImagens da gravação do CD/DVD ao vivo no Audioclub, em São Paulo. Foto: Divulgação/LuringaImagens da gravação do CD/DVD ao vivo no Audioclub, em São Paulo. Foto: Divulgação/LuringaImagens da gravação do CD/DVD ao vivo no Audioclub, em São Paulo. Foto: Divulgação/LuringaImagens da gravação do CD/DVD ao vivo no Audioclub, em São Paulo. Foto: Divulgação/Luringa

E os seus fãs? São os mesmos do começo da banda ou eles mudaram?
Tem um número de fãs bem considerável que a gente conhece a cara deles, conhecemos os nomes deles, a gente percebe que o cara acompanha a banda há 10 anos. Quando fizemos uma turnê de 40 shows, só tocando as músicas dos primeiros três discos, a gente percebeu que a idade dos fãs mudou. Um pessoal da nossa idade que acompanhava a banda lá atrás. É muito importante que [o grupo] mantenha o seu público, que não passe por eles, mas os leve. E também conquiste os fãs novos, conquiste essas pessoas que estão estrando na adolescência musical. A gente é muito velho para ser uma banda teen, mas ainda tem menino de 14 anos que aparece em tarde de autógrafo.

Qual foi o maior momento da carreira da Fresno?
O primeiro grande festival que a gente tocou, quando percebemos o que essa parada estava virando. As pessoas que conhecem nosso rosto e sabem o que somos. O artista tem um trabalho bastante aspiracional e as pessoas se sentem muito íntimas, isso é ótimo. A atual realização mór da gente foi executar este DVD, ter sobrevivido um vale que sofreu a nossa cena. É uma ressaca que limpa as pessoas que só queriam surfar aquela onda e fica quem realmente quer fazer.

E como vocês sobreviveram a este “vale”?
Esse vale foi difícil, mas ao mesmo tempo a gente produziu tanta coisa e conseguimos fidelizar os nossos grupos.

O CD/DVD chegou às lojas no fim de abril
Divulgação/Luringa
O CD/DVD chegou às lojas no fim de abril

Foi a época mais difícil da banda?
No auge do sucesso talvez eu estivesse mais problemático da minha cabeça do que agora. Mexe com a cabeça da pessoa, o cara que foi underground por muito tempo, demora para perceber que nem todas as situações são tomadas por ele. Foi um momento de um pouco de crise, mas talvez se eu estivesse em qualquer modo de vida eu estivesse na mesma crise. Não saber o que quer realmente da vida. É uma coisa que muita gente passa, mas nós passamos enquanto éramos a banda mais falada do Brasil. Aquilo foi muito mais difícil do que qualquer época em que estivemos comercialmente ruim.

O que vocês acham que mais mudou na indústria musical de lá para cá?
A nossa carreira permeia uma grande mudança do mercado musical. Uma mudança que acontece de 50 em 50 anos. Essa transferência da mídia física para a mídia musical. De um mundo de rádios e TV, para um mundo onde não há mais os grandes guardiões da informação. Não existe mais isso de sucesso absoluto. A mídia era muito mais brutal, você tinha que gostar daquilo que tava tocando. Hoje em dia a gente vive um momento onde as coisas são mais democratizadas. Hoje em dia há mais caminho para você ser um artista de sucesso. É mais democratizado, mas ainda em plena transformação.

Quais são os planos para o futuro?
Consigo ver a Fresno tocando nos maiores festivais do Brasil, vejo um casal se beijando na novela e a nossa música tocando. Tem muito mais o que a gente conquistar, o rock conquistar. Sinto que está surgindo uma nova onda de novas bandas.

Quais bandas?
Scalene e Supercombo são bandas que eu venho falando há muito tempo. Essas bandas três anos antes estariam estourados, mas surgiram nesta depressão do rock. Sempre acompanhei de perto, apesar de eles precisarem de um programa global para aparecer [Ambos os grupos estão no reality show “Superstar”], acho que eles têm realmente história. Acredito muito que vai dar certo. Tem histórias, tem músicas boas, fazem o negócio que querem.

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