Baixista do Faith No More desdenha do Nirvana: "Banda de rock, mas nada além"

Por Gustavo Abreu , iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Banda volta ao Brasil pela sexta vez com show do disco "Sol Invictus", primeiro deles desde 1997. Em entrevista ao iG, Billy Gould fala sobre o reencontro do grupo no estúdio e a aventura que é ser um rockstar aos 52 anos

“Brincalhão” é a melhor palavra para definir Billy Gould, baixista do Faith No More, ao telefone. Que vocês estão preparando para os shows no Brasil? “Vamos dar camisinhas de graça. Vamos colocá-las num balão gigante e estourar, elas vão voar para todos os lados.” O que vocês conversam quando encontram bandas da época? “Que tipo de laxante estão tomando ou que fibra estão comendo, se eu fiz um bom cocô naquela manhã.”

Leia mais - Novo disco de Tulipa Ruiz: "É para quem fecha os olhos e dança"
Se "Clube dos Cinco" fosse feito hoje, eles não sairiam do celular, diz produtor

É com esse espírito "tio, porém jovem" que o Faith No More retorna ao Brasil pela sexta vez depois de quatro anos desde sua última apresentação no País, e desta vez com o show completo do disco “Sol Invictus”, lançado em maio.

Faith No More lançou em maio o disco
Divulgação
Faith No More lançou em maio o disco "Sol Invictus", primeiro depois de dezenove anos

Este é o sétimo álbum da banda e o primeiro em dezenove anos -- o último, “Album of the Year”, saiu em 1997.  O grupo tem apresentações marcadas em São Paulo (24/09 no Espaço das Américas) e Rio de Janeiro (25/09 no Rock in Rio).

O Faith No More foi um dos principais ícones do funk-metal-punk-give-it-away dos anos 90. Original de São Francisco, o grupo foi responsável por hits como "Epic" e "Falling To Pieces", e influenciou toda uma geração de músicos, que mais tarde vieram a formar bandas de new metal -- Linkin Park e Korn são algumas delas (valeu, FNM! #sqn).

Billy, de 52 anos, é integrante original do grupo, que já passou por muitas formações. Não tem medo de dizer que está velho -- “Pode falar, nós somos homens velhos mesmo” -- mas diz que no palco a força roqueira é a mesma. “Temos muita energia. Talvez estamos até melhor agora do que há 30 anos.”

Imagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: DivulgaçãoImagens da banda Faith No More. Foto: Divulgação

Ele conta que o grupo decidiu voltar porque isso parecia ser a coisa certa a se fazer. “Todo mundo ficou feliz em se ver. Fizemos isso por muito tempo, então quando nos vimos, pensamos ‘por que não fazemos algo?’” O primeiro reencontro aconteceu por acaso em uma festa de casamento.

Na entrevista a seguir, Billy fala mais sobre o retorno do Faith No More, fibras, laxantes, e desdenha sem dó o legado do Nirvana. “Era uma banda de rock, mas nada além disso.”

iG: Quais lembranças tem dos shows no Brasil?
Billy Gould: Minha vez favorita foi a primeira. Tocamos em São Paulo por quatro noites no Olympia. Aqueles foram shows totalmente insanos. O Brasil sempre tem um público ótimo.

iG: O que vão fazer de diferente desta vez?
Billy Gould: Vamos dar camisinhas de graça. Vamos colocá-las num balão gigante e estourar, elas vão voar para todos os lados.

iG: Como é voltar na era digital, considerando que em 97 a internet não era nada?
Billy Gould: Como músico, o processo de gravação foi o mesmo. No que diz respeito ao que acontece depois, eu não presto muita atenção. Tem aspectos diferentes… As pessoas não compram tanto mais discos, a publicidade mudou. Mas isso não me interessa muito. Estou apenas feliz que fizemos o disco, e um disco que gostamos. Isso é tudo para mim.

Imagem do grupo no Rio de Janeiro, em janeiro de 1991. A banda se apresentou no Rock in Rio 2
Divulgação
Imagem do grupo no Rio de Janeiro, em janeiro de 1991. A banda se apresentou no Rock in Rio 2

iG: Vocês decidiram voltar durante um casamento, foi isso?
Billy Gould: Eu não fui a esse casamento, então não para mim. Mas todo mundo ficou feliz de se ver em um só lugar. Foi a primeira vez que aquilo aconteceu depois de muito tempo.

iG: O que fez vocês voltaram, então?
Billy Gould: Acho que todo mundo ficou feliz em se reencontrar. Fizemos isso por muito tempo, passamos boa parte das nossas vidas fazendo isso juntos. Então quando nos vimos de novo, pensamos ‘por que não fazemos algo?’”

iG: Como foi se reencontrar musicalmente no estúdio?
Billy Gould: Foi um pouco diferente. Nós todos fomos para direções diferentes desde que nos separamos, então, ao voltar, todo mundo tinha habilidades diferentes do que antes. Mas na maior parte não foi tão diferente. Foi familiar de um jeito bom. Quando as coisas começaram a ficar prontas e soar bem eu fui ficando animado como ficava antes.

iG: Não estou chamando vocês de velhos, mas…
Billy Gould: Pode falar, nós somos homens velhos mesmo!

iG: Só queria saber qual a diferença de ser um rockstar com 20 e poucos e agora com 50 e poucos.
Billy Gould: É estranho. Eu não achei que estaria fazendo música aos 30, achei que isso já seria velho. Mas agora estou com 50 e ainda estou fazendo isso. Mas sabe que a coisa mais estranha de tudo isso é que os shows são realmente bons. Nós temos muita energia. Talvez estamos até melhor agora do que há 30 anos.”

O Faith No More tem apresentações marcadas em São Paulo (24/09 no Espaço das Américas) e Rio de Janeiro (25/09 no Rock in Rio)
Divulgação
O Faith No More tem apresentações marcadas em São Paulo (24/09 no Espaço das Américas) e Rio de Janeiro (25/09 no Rock in Rio)

iG: Mudou alguma coisa na maneira como pensam a música ou o rock?
Billy Gould: Quando as pessoas ficam mais velhas elas coletam novas informações e coisas que as deixavam animadas no passado talvez não deixem mais. Eu tento não ser tão estúpido como eu era antes, e isso não é fácil, mas eu tento. Mas eu não quero ser mais velho e soar mais velho. Nós somos homens velhos, sem dúvida, mas a música não precisa refletir isso, pode ser o que a gente quiser.

iG: Sobre o que você conversa quando encontra gente que também fazia sucesso em 1991?
Billy Gould: Temos diferentes tipos de conversas agora. Tipo se eu encontro os caras do Foo Fighters, conversamos sobre que tipo de laxante eles estão tomando, ou que fibra estão comendo, se eu fiz um bom cocô naquela manhã. E todo mundo fica animado com isso, porque estamos velhos e podemos apreciar esse tipo de coisa.

iG: Por que o tema sadomasoquismo nas artes de divulgação?
Billy Gould: Não sei, porque a sensação é boa. Dói, mas é bom.

iG: Quem teve essa ideia?
Billy Gould: Tem algum palpite?

iG: Você?
Billy Gould: (risos) Não, não fui eu. Vou deixar os fãs tentarem adivinhar.

iG: E por que estão usando branco agora nos shows?
Billy Gould: Porque a sensação é boa. É branco, e não preto. Para ser sincero, funciona no palco. Segura bem a luz, faz parte do pacote. Tudo junto funciona.

iG: Para as grandes gravadoras, o rock basicamente morreu. Como você vê isso?
Billy Gould: Eu não sei, não sou o cara para falar sobre isso. Sou muito subjetivo quanto a escrever e gravar. Já em relação à cena do rock’n’roll, e o gênero, não presto atenção. Não leio revistas, não é algo que eu pense sobre.

Capa do disco
Divulgação
Capa do disco "Sol Invictus"

iG: Mas que banda atual você gosta?
Billy Gould: Boa pergunta. Sempre que me perguntam me dá um branco… Eu gosto muito do que o Meshuggah está fazendo.

iG: A banda continua ou esse é o último disco?
Billy Gould: Vamos sair em turnê amanhã, pela América do Norte e depois América do Sul. Depois disso, vamos dar um tempo. Vamos conversar e decidir o que faremos depois. Acabamos de lançar um disco faz dois meses, então não teria motivo para falar sobre um novo álbum agora.

iG: Só de curiosidade, você viu “Montage of Heck”? [Courtney Love, viúva de Kurt Cobain já foi vocalista do Faith No More]
Billy Gould: Não, não vi. Eu não sei nada sobre. Sei que tem umas coisas bem fodidas nele, mas não sei nada. Não sou particularmente interessado nessa história, para ser sincero. Eu não acho tão interessante, não prende minha atenção. O Nirvana era uma banda de rock, mas nada além disso. A deificação disso é uma coisa ridícula. Mas tenho certeza que é um filme bem feito sobre uma história muito triste.

Leia tudo sobre: Faith No MoreNirvana

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas